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especiais |
Ruído
Festival 2004
Por
Pedro Schneider
Burburinho
na porta, bandas, estandes com camisetas estilizadas e CDs independentes,
amigos... Foi mais ou menos esse o retrato do meu último
fim de semana de fevereiro, nos três dias do 3° Ruído
Festival, o maior evento de bandas independentes do Rio de Janeiro.
Produzido por Rodrigo Quik, Gabriel Thomaz e Débora Martins,
o evento já conquistou seu espaço no calendário
alternativo da cidade e é ponto de referência para
se conhecerem bandas que não tocam nos grandes meios de comunicação.
Além disso, paralelamente aos shows, foi lançado,
este ano, oficialmente o Manifesto da Cultura Independente Carioca,
liderado por Quik, uma espécie de mecenas do underground.
O cara, além de liderar duas bandas e promover eventos, resolveu
levantar a bandeira de uma turma sem representatividade política
nenhuma. E o Ruído é apenas o início do que
promete ser um ano de muitas alegrias para as pessoas envolvidas
na cena. Afinal, como ele mesmo fez questão de dizer: "Este
ano eu estou louco". Quem sou eu para duvidar?
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27 fev 2004
O Juizado de Menores adverte:
roquenrou faz mal à saúde |
Sexta-feira, onze horas da noite. Após algumas "sociais"
na porta, lá estava
eu pronto para assistir ao primeiro show da noite, executado pelo
pessoal do
Los Canos. Banda nova, da Bahia, 25 horas de viagem a serviço
do roquenrou.
O Ruído começava bem. À medida que o tempo
passava, fui achando estranho que
o burburinho lá de fora não se refletisse no local.
Pouco depois, veio a
resposta: o Juizado de Menores do Rio resolveu bater à porta
do Ballroom e
não permitir a entrada de menores de 18 anos. Resultado?
Várias pessoas do
lado de fora e público menor do que o esperado.
Apesar dos problemas, a noite foi de muito roquenrou. Verbase sucedeu
Los
Canos sem conseguir empolgar muito a platéia, que ainda ia
se reunindo perto
do palco. Os destaques do dia ficaram para o final e por conta das
bandas
Narjara (RJ), Nancyta e os Grazzers (BA) e Matanza (RJ). O Narjara
estava de
visual novo no palco, mais colorido e menos "carrancudo".
Tocaram músicas
novas que estarão no CD a ser lançado este ano e mostraram
maturidade e
evolução nos arranjos. Rodrigo Quik comandou a turma,
com direito a máscara,
danças e até "coreografia oceânica".
| Rodrigo Quik e sua "coreografia oceânica" |
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A banda Arkham veio depois do Narjara, com um show que não
empolgou.
Abusando de clichês como bebidas no palco e quebra de instrumentos
(de
brincadeira, é claro), desfilaram seu rock pesado com direito
até a cover de
Faith No More. Em seguida, veio a agradabilíssima surpresa
da noite: a
baiana Nancyta e seus Grazzers confirmaram que nem só de
axé vive a Bahia.
Ela entrou arrebentando, com uma voz potente e uma presença
de palco que
levantou o Ballroom que, àquela hora da madrugada, já
parecia com sono. A
galera se empolgou com o som da banda, "pogou" e se divertiu
bastante.
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Nancyta e os Grazzers |
E para fechar, no finzinho da noite, chegou o Matanza, no melhor
estilo "pé
na porta, soco na cara". Os cowboys do roquenrou possuem um
público fiel
que, desde cedo, já era identificado com seus chapéus
de boiadeiro e suas
camisas pretas. O Matanza consegue algo quase extinto nos dias de
hoje que é
a originalidade. O som é uma mistura de hardcore com country,
com letras
falando de mocinhos, bandidos, bebedeiras, jogos e claro, de amor,
como na
bela "Mesa de Saloon", em que os versos "Foi numa
mesa de bar que a conheci
/ bem no meio do saloon me apaixonei / e logo na manhã seguinte
eu descobri
/ com ela não consigo mais viver dentro da lei" dão
a noção exata do
conceito do grupo. O primeiro dia não poderia ter terminado
melhor.
| Jimmy
London, vocalista do Matanza |
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28 fev 2004
Mulher macho, não senhor |
Lembra aquela época, quando as poucas mulheres que tocavam
rock eram
masculinizadas e precisavam matar um leão por dia para não
serem tachadas de
vagabundas e outros nomes menos cabíveis? Como é bom
constatar que os tempos
mudaram. Nada contra nenhum estilo, mas que é bom ver mulheres
bonitas e
femininas tocando roquenrou, isso é.
A noite do dia 28 começou bem, sem a proibição
do dia anterior e com duas
bandas "à moda antiga", ou seja, só de homem.
Tom Bloch e Viana Moog
esquentaram as turbinas para o que ainda estava por vir. A primeira
porrada
veio com Leela. Apesar de alguns problemas técnicos e de
distrações de seus
integrantes no início de algumas músicas, o quarteto
carioca apresentou seu
show calejado, com músicas que já são hits
há algum tempo no underground
carioca. A bela Bianca Jhordão, já acostumada às
costumeiras manifestações
do público masculino, levou o barco adiante com charme e
muito bem
acompanhada pela guitarra de Rodrigo Brandão.
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Bianca
Jhordão, a bela do Leela |
Depois do Leela, subiu ao palco a grande banda do festival, uma
ótima
surpresa para mim que não os conhecia. A banda Ludov, de
São Paulo, chegou
com pressão e leveza, mostrando que não é preciso
amplificadores no talo
para se produzir um som cheio. Dessa vez, outra menina, Vanessa
Krongold,
outra graça de vocalista, desfilou sorrisos e notas afinadas,
levantando a
platéia. Do lado direito do palco, Mauro Motoki brincava
de tocar guitarra e
teclado ao mesmo tempo, com um bom gosto leve e simples. Detalhe
para o
pequeno laptop embaixo do teclado, que contribuía para a
pressão do som.
Banda de primeira qualidade, que merecia muito mais destaque na
mídia.
| Mauro
Motoki em ação |
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E, como se não bastasse tudo isso, na última música,
Vanessa chamou ao palco
a vocalista Grazi, do Wonkavision, e Bianca, do Leela, para cantar
B52's. A
platéia que, a essa hora, já lotava o Ballroom, acabou
se encantando de vez
com as novas divas do underground.
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Vanessa,
Grazi e Bianca, as novas divas do underground |
Para fechar a overdose de charme, Wonkavision entrou em cena. Eu
tinha uma
grande expectativa em relação a essa banda, que não
me decepcionou. Como no
show do Leela, alguns problemas técnicos prejudicaram o início
do show. A
tecladista Manu, mais uma que arrancou suspiros da turma do gargarejo,
nitidamente não conseguia ouvir seus backings, mas aos poucos
o power pop de
muita melodia e letras simples foi tomando conta do Ballroom. Destaque
para
a música "O plano mudou", que conta a história
do fundador, guitarrista e
vocalista da banda, Will Prestes - que resolveu jogar no lixo uma
carreira
de publicitário nos Estados Unidos para formar o Wonkavision
aqui no Brasil
- nos versos "Vou pular janela afora / vou cortar meu pulso
agora / seja o
que Deus planejou / o plano mudou". Membros de várias
bandas conhecidas que
estavam presentes no local se misturavam ao público, criando
um clima de
cumplicidade muito gostoso. Digno de registro, ao fundo, o vocalista
do Los
Hermanos, Marcelo Camelo, fumava seu cigarro com o sorriso escancarado
para
o Wonkavision.
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Manu, charme a serviço do Wonkavision |
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E depois de tudo isso, os rapazes dos Walverdes fecharam a melhor
noite do
festival. Ah, como é bom ouvir música boa!
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29 fev 2004
Homens de Preto |
Cometi dois erros primários nesta terceira e última
noite do Ruído. O
primeiro foi que deixei minha paixão clubística falar
mais alto e resolvi
assistir ao meu Fluminense, no Maracanã, o que me fez chegar
atrasado e
perder a primeira apresentação da noite com a banda
Guitarria. Bom, não
poderei opinar sobre essa banda, mas, pelo que me disseram, teve
até beijo
na boca entre integrantes, em uma espécie de versão
masculina daquele beijo
entre Madonna e Britney Spears na MTV.
O segundo erro foi constatado assim que pisei no Ballroom. Na pressa,
escolhi uma camiseta amarela, estilosa, meio desbotada para ir ao
festival e
me senti quase como um ET, pois, naquele dia, o traje era extremamente
rígido: camiseta preta! Na mesma hora me veio à cabeça
aquele comercial do
Charlie Brown Jr., em que o Chorão condena um garoto no meio
da platéia por
não seguir o "estilo". Mas vamos parar por aqui,
porque isso já está
parecendo guerra de propaganda de refrigerante.
Além dos uniformes pretos, o Ballroom estava diferente nesse
dia. As
cadeiras e as mesas que ficavam atrás da platéia foram
todas retiradas para
que o público pudesse ter mais mobilidade, uma previsão
de que iria rolar
muita zoeira.
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Os
homens de preto invadiram o Ballroom |
Foi o dia também mais recheado de "vips". Integrantes
de bandas como
Detonautas, Los Hermanos, Barão Vermelho, entre outros, circulavam
e batiam
papo nos intervalos. O primeiro show que presenciei na noite foi
o da banda
Estrume'n'tal, de Belo Horizonte, que, como o próprio nome
diz, só toca
música instrumental. Guitarras altas, baterista soltando
o braço e músicas
interessantes. Mas, para um show de mais ou menos meia hora, o som
cansa,
por serem as músicas parecidas demais. A banda seguinte,
Detetives de São
Paulo, não empolgou muito.
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Estrume'n'tal em ação |
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Banda
Detetives de São Paulo |
Para animar a platéia, Los Pirata apareceu na área.
Os caras tocam muito bem
e são engraçados: o baterista usa um kit de brinquedo
e o guitarrista enche
as músicas de efeitos e solos jazzísticos. A aparência
da banda é
super-engraçada. O som é um mix de rockabilly, punk
e surf, com letras em
portunhol. Rolaram covers de "Fire", de Jimi Hendrix ,
em espanhol, e
"Blackbird", dos Beatles, em versão hardcore. A
cultuada e esperada banda
Carbona foi a penúltima da noite, com seu punk estilo Ramones,
levando à
loucura os fãs, que já se acostumaram a vê-los
em "matinês" na casa. Junto
com o Forgotten Boys, foi a banda que mais levou público
ao evento. Os caras
sabem fazer show e são animados.
Para fechar com chave de ouro o 3° Ruído Festival, os
Forgotten Boys
mandaram muito bem, com um som que lembra o hard rock dos anos 70.
Eles
mostraram por que são uma das principais bandas de roquenrou
do País. O
repertório foi basicamente o do disco lançado há
dois anos.
Ouvi dizer que eles costumavam tocar "It's so easy", do
Guns, música que foi
substituída por "Sister Anne", do mc5, nessa apresentação.
Showzaço que
concluiu o evento e me fez ver, mais uma vez, que é possível
acreditar em
uma cultura independente, capaz de sobreviver se for bem representada
pelas
pessoas envolvidas nesses projetos.
Pedro
Schneider
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