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Entrevista
- Sérgio Dias | parte
1 | parte 2 |
Eu era o melhor guitarrista do Brasil aos quatorze,
quinze anos de idade
Confira
a segunda parte da entrevista com o mutante Sérgio
Dias feita com os colunistas do Roquenrou Arthur Tofani, Ronaldo
Branco e Rodrigo EBA!
mp3
e bancas de jornal
Arthur
Tofani- Você acha legal esse negócio
de lançar CD em banca de jornal?
Sérgio
Dias - Com certeza! Lógico!
Ronaldo
Branco - É uma alternativa boa, né?
Sérgio
Dias - É óbvio!
Arthur
- E a hora em que todo mundo começar lançar
CD em banca e a banca virar uma loja de CD?
Ronaldo
- As gravadoras já estão fazendo isso...
Sérgio
Dias - Fantástico! Bom, as gravadoras estão
fazendo isso... O que vai acontecer: o CD vai baixar de preço
pra um preço razoável, o público vai
ter mais acesso à música, não vai ser
escravo de seis pessoas do Rio de Janeiro, que determinam
no Brasil inteiro o que você vai ouvir, o que o cara
do Amapá vai ouvir, se você vai ter uma banda,
se você vai poder tocar, se você não vai
poder tocar... Pra onde você vai se você tiver
que mostrar sua demo? Pra porra do Rio de Janeiro!
Arthur
- E quanto à internet?
Sérgio
Dias - Tudo bem, mas como é que você vai
ganhar dinheiro na internet? E sem dinheiro não existe
trabalho, bicho, é impossível.
Arthur
- Mas músico nunca ganhou dinheiro com CD!
Sérgio
Dias - Opa! Fala isso pra Shakira! Fala isso pro Ray Charles!
Fala isso pro Paul McCartney!...
Arthur
- Ah, tudo bem, mas são só a Shakira e o
Ray Charles... São poucos...
Sérgio
Dias - ....Sabe de onde veio o Paul MacCartney? cê
já esqueceu, né? Era filho de bombeiro, de Liverpool!
Ele era um cara igual a você só que conseguiu
chegar no fim, no topo da pirâmide!
Arthur
- Eu sei, mas eu costumo fazer essa comparação,
de um músico com outro profissional, de outra área.
Por exemplo: a mãe vira pro filho assim e fala: "Ah,
filho, você vai ser músico? Não vejo a
hora de você ficar famoso!", se fala "Filho,
cê vai ser médico? Que bom, seja um bom médico!"...
Sérgio
Dias - Não, ela fala: "Não vejo a hora
de você ter um consultório e ganhar um monte
de dinheiro!". A cobrança sempre existe. Eu cobro
a minha filha.
Arthur
- Que seja, mas eu acho o seguinte: o músico está
sempre voltado a uma fama que às vezes não é
necessária. Você pode ter bons trabalhos, vender
shows, ganhar dinheiro com shows em um determinado local e
não necessariamente viver de CDs que nem o Roberto
Carlos faz.
Sérgio
Dias - Não, mas entenda o seguinte: A gente tá
falando de duas coisas distintas. Business e Monopólio.
Business é tudo que envolve música e que vai
gerar a renda que vai fazer você poder fazer o próximo
disco, você poder chamar um produtor que você
queira, pagar o estúdio que você quiser, e fazer
o seu serviço da melhor maneira que você possa
pra que você traduza sua música da maneira mais
perfeita possível. Pra isso você precisa de dinheiro,
não tem como. Então você não pode
descartar todos os seus mercados que existem em torno do seu
metier, como por exemplo, o cara que inventou o David Cookies,
nos Estados Unidos. O cara começou a fazer no fogão
da casa dele um biscoitinho e virou a maior coisa de biscoito
da América inteira, entende? Não é por
que existe esse cartel imenso entre lojas, rádio e
o cacete a quatro que você vai desprezar qualquer outra
forma de você captar dinheiro, porque não é
correto também o público usufruir da sua arte
e você não receber nada em troca. Não
é legal ser Van Gogh. Tá errado. Van Gogh cortou
a orelha, ficou louco, se fudeu todo e o quadro dele é
vendido a dez milhões de dólares! Que que é
isso, pô!? Não tá certo. O certo é
você receber. Não dez milhões, mas que
seja ciqüenta pau mais que você ganhe! Pra quê?
Pra que você estimule até o próprio público.
Por exemplo, a gente vai fazer o show no Tuca. A gente tá
com uma dificuldade terrível. Porque se a gente quer
fazer isso e a gente quer bancar a situação,
que é o caso, como é que você faz pra
ter algum tipo de lucro, isto é, poder sobreviver,
pagar conta no fim do mês - porque todo mundo paga conta,
é... vive - quando o ingresso custa quinze reais e
qualquer estudante que chegar lá com uma carteirinha
paga sete e meio?
Arthur
- É verdade. Na verdade deveria ser um subsídio...
Sérgio
Dias - Sim, mas não tem subsídio pra música.
Pra teatro tem, em tudo quanto é lugar. Pra música
não tem. Você pode arrumar um patrocínio
aqui, um patrocínio alí, porque você conhece
o cara, alguma coisa assim, mas não é tão
fácil. Agora por quê? Porque o sistema tá
errado. O sistema certo, sim, é o sistema da gravadora,
só que sem cartel. Então se você vai vender
música pela internet, essa história de Napster,
essa coisa, isso é uma puta de uma gatunice do grande
caralho
Arthur
- Você não usa isso?
Sérgio
Dias - De jeito nenhum! Sob hipótese alguma! Você
acha que eu vou roubar o meu fellow musician? Nem a pau!
Arthur
- Mas você tem uma música disponível
no MP3.com. Foi você que fez essa página?
Sérgio
Dias - De jeito nenhum.
Arthur
- Não!? Você já chegou a ver?
Sérgio
Dias - Não. Nem sabia que existia esse tal desse
site...
Arthur
- É uma das maiores gravadoras virtuais que existe...
Na verdade o artista dispõe as músicas que quer...
Eu tenho músicas lá... (www.mp3.com/arthurtofani)
Sérgio
Dias - Certo. Mas você é pago por isso?
Arthur
- Sou. Eles pagam...
Sérgio
Dias - Bom, se eles pagam pra mim tá limpo!
Arthur
- Eles pagam meio centavo por música ouvida...
Sérgio
Dias - Meio centavo? Isso é pouquíssimo...
é pouco.
Arthur
- É pouco... bom, nem é tão pouco
porque suas músicas estão ali pra seis bilhões
de pessoas...
Sérgio
Dias - Não importa! O seu disco, quando sai numa
gravadora dá acesso a... quantos milhões de
habitantes tem no Brasil? Cento e quarenta milhões!
É bem mais que na internet.
Arthur
- Quanto você recebe por faixa? Dá mais ou
menos isso?
Sérgio
Dias - Dá mais. Bem mais, com certeza. A gente
tem na realidade 12% de royaties, entende? Digamos que o CD
custe dez reais, vai sair R$ 1,20, divide por três,
são quase quarenta centavos, trinta e tantos centavos,
não um centavo, que isso! Vão tomar no cu! Os
caras são ladrões.
Arthur
- Ah, mas peraí...
Sérgio
Dias - Eles fizeram alguma coisa? Eles pagaram estúdio?
Eles pagaram os músicos? Eles estão comprando
o CD? Eles fazem a capa? Eles fazem a arte? No meu CD eles
não podem fazer isso.
Arthur
- Eles fazem uma capa escrita MP3.com o nome...
Sérgio
Dias - Não interessa, eles não podem disponibilizar
uma música minha, isso é proibido por lei. O
meu contrato com a minha gravadora proíbe a gravadora
de fazer isso sem a minha aprovação, entende?
Então tem muito roubo dentro na internet.
Arthur
- Eu pensei que você é que tinha colocado.
Sérgio
Dias - De jeito nenhum, por que eu ia fazer isso? Se eu
fosse fazer isso faria no meu site.
pirataria
e mst
Rodrigo
EBA! - O que você acha da campanha que as gravadoras
fazem colocando o artista pedindo para não comprarem
CDs piratas?
Sérgio
Dias - Bom, CD pirata é um puta roubo! Outro dia
veio um cara aqui pra eu assinar um CD dele que era completamente
pirata, tinha dois discos meus dentro do CD e a capa feita
em impressora. Como é que você se sente? É
igual a alguém estar vestindo sua camiseta e sua cueca!
Na galeria do rock, lá. Isso é um roubo!
Rodrigo
- Não, eu falo pelo seguinte: a gravadora faz uma
campanha chamando um monte de artistas...
Sérgio
Dias - Tão certo!
Rodrigo
- Mas não seria uma faca de dois gumes, isso? Porque
na verdade a gravadora está defendendo o interesse
dela e isso está sendo escondido...
Sérgio
Dias - Não, isso é óbvio, ululante,
não tem problema. Gravadora tem mais é que defender
o trabalho dela. Tá certo. Agora não vamos errar
e confundir as batalhas. Existe uma guerra? Sim, existe uma
guerra. Mas essa batalha é a batalha do músico
não ser roubado no caso da internet e o músico
não ser roubado pela gravadora é outra batalha.
Aí é botar número em disco, que é
o que o Lobão fez. Do grande caralho! Com certeza!
Como é que você vai saber quanto disco você
vendeu?
Ronaldo
- A gravadora chuta um número pra você...
Sérgio
Dias - Sem dúvida! Você é roubado,
não tem papo! Isso é fato. Outra luta é
rádio. Você pagar dez pau pra sua música
tocar? Não. Então o que a gente faz? A gente
tá pagando anúncio na rádio. Tô
anunciando a venda do disco. Tô usando o comércio
perfeitamente, mas não tô dando jabá.
É toma lá, dá cá. Quanto custa
o anúncio nessa rádio? Custa R$ 120,00? Legal,
põe anúncio. Mas não vai pro bolsinho
do cara, não. Então existem formas de você
trabalhar que são legais, são concretas, dentro
do comércio legal e que você não precisa
ser um crápula como todo mundo, nem de um lado nem
do outro. Essa história de MST, bicho, eu não
concordo com isso aí, não, em todos os amplos
poderes que a palavra dá. Você poder invadir
qualquer lugar aí e dizer que é teu.
Arthur
- Mesmo porque tem um monte de lugar que não tem
dono... Por que você não vai justamente nele?
Vai ter que invadir um lugar que já é de alguém?
Sérgio
Dias - Pois é. Agora, e quem disse que a fazenda
que eles estão invadindo... Ok, pode ser que ela esteja
improdutiva agora, mas pode ser que ela tenha 400 anos de
história. E o cara que cavou a terra, lá, que
lutou por ela, que defendeu disso, o caralho a quatro, trabalhou
feito um filha da puta, veio da Polônia, do diabo que
for, pra fazer a fazenda dele e ele suou sangue pra fazer
o que a porra da fazenda é agora. E chega um bando
de... vagabundo! Porque não estão a fim de ralar
lá no Nordeste e irrigar igual ao Egito fez há
cinco mil anos, né? Vão à merda! Tá
cheio de terra lá no Nordeste! Por que que não
irrigam aquela merda? "Ah, não! O governo tem
que cuidar de mim, sabe? O presidente... O Lula vai resolver
meu problema..." Vai à merda!
Arthur
- É, o brasileiro tem a mania de querer empurrar
a responsabilidade pros outros...
Sérgio
Dias - É, o brasileiro é realmente em muitos
aspectos extremamente comodista. Pra não dizer covarde.
Arthur
- Sabe o que eu acho, que isso pode ser porque a gente
não tem uma tradição. Por exemplo, você
pega uma cidade tipo... Londres. Aquela cidade está
lá a muitas centenas de anos. E a gente não!
Sérgio
Dias - Não, a gente tem uma tradição,
sim. A gente tem uma tradição de invasão.
Qual é a história da Grã-Bretanha? Em
1300, 1200, aquela merda foi invadida pelos bárbaros,
pelos saxões, os normandos invadiram aquela porra toda,
a França invadiu a Inglaterra, o pau comeu lá,
bicho. Agora em 64, agora, teve uma revolução
da qual vocês são filhos, que não acabou
ainda e vocês nem perceberam. Vocês estão
estudando?
Arthur
- Faculdade de música...
Sérgio
Dias - Certo, mas vocês têm história
dentro da faculdade de música, não têm?
Aonde que é mencionada a revolução de
1964? E como é mencionado isso?
Arthur
- Bom, como eu faço USP os professores vivem ainda
nessa época...
Sérgio
Dias - Vocês vivem nessa época! Há
14 anos vocês não podiam votar, entende? Não
acabou essa revolução. Essa história
de que nosso "querido" general - militar - Figueiredo
deu o poder pro povo... Opa! Não é bem assim.
escravos
da revolução
Rodrigo
- É, a história do Brasil é sempre
assim... sem conquista, tudo dado... a Independência
surgiu do nada...
Sérgio
Dias - Quem foi o brasileiro fodão? Cadê
o seu herói? Por que vocês hasteiam a bandeira
da porra do Che Guevara e não hasteiam a bandeira do
Lamarca? É uma puta hipocrisia, bicho, uma puta babaquice!
A gente não sabe dos próprios heróis...
O Lamarca é brazuca! Agora vai levantar a bandeira
do Che Guevara? Pau no cu do Che Guevara, bicho! Então
vamos levantar a bandeira dos caras que foram mortos e torturados
aqui de verdade há muito pouco tempo atrás!
Qual foi o primeiro movimento da revolução?
Acabar com a cultura do Brasil, não foi? Puseram todo
mundo pra fora, todo mundo exilado! Qual é o resultado
que você tem agora? Cadê a cultura do Brasil?
Por que você acha que tá assim? Cê acha
que é por causa das gravadoras? Acorda, meu! Isso é
guerra! Isso é uma revolução! Ainda existente,
só que agora a fórmula é muito mais inteligente.
Eles pegam 6, 7 caras que comandam a mídia, trabalham
com dinheiro, porque todo mundo tá corrupto, usam a
Globo, usam - sei lá - todo esse sistema todo pra massificar
informação, informação, informação.
Em relação à repressão eles não
precisam mais usar os militares porque é muito mais
fácil deixar bandido fazer isso por eles. Então
você se mantém em prisão domiciliar, e
vendo televisão. Porque você anda na rua morrendo
de medo, com o cu na mão. Você acha que eles
não têm poder pra acabar com essa merda toda,
de bandido e o cacete a quatro? Tem certeza? Cê lembra
quando teve a ECO 92? Não tinha UM bandido na rua no
Rio. Tinha tanque de guerra em tudo quanto é lugar.
O exército brasileiro é forte! Agora, por que
não acaba? Porque é muito mais interessante
pra eles deixarem vocês em prisão domiciliar!
Sem ter que pagar um puto! Sem ter que botar o nome de militar,
pra vocês ainda ficarem putos com o bandido! Quer dizer,
a história é outra. Então se vocês
olharem um pouquinho pra trás - não é
muito - vão entender que vocês estão dentro
de uma revolução tão séria quanto
a que houve em Sarajevo, quanto a que houve na Checoslováquia,
quanto a que houve em todos esses lugares do mundo. Só
que a coisa foi tão bem feita que vocês nem sabem.
Rodrigo
- E é isso que você fala na música
"Escravos da Revolução"?
Sérgio
Dias - Sem dúvida! "Da juventude putrefata,
cadáver da extinção". É disso
que eu tô chamando vocês. Porque vocês não
abrem os olhos e não vêem. Então se eu
não sacudo vocês que caralho eu vou ser? Vou
fazer o quê? Vou "ficar de quatro no ato"?
"Me enche de amor"? Porra, dá um tempo! Não
é por aí. Então hoje em dia ou você
é brasileiro ou então, bicho, pica a mula! Eu
tenho Greencard. Mas tô aqui. Olha minha bandeira, lá!
[aponta pra uma bandeira do estado de São Paulo] Tem
lá, ó: MMDC, as quatro estrelas. São
Paulo verteu sangue pelo Brasil.
Arthur
- É o problema é que a gente não
tem esse tipo de informação da maneira certa.
Eu, por exemplo, não tenho o menor conhecimento da
história do Brasil de 100 anos pra cá!
Sérgio
Dias - Mas essa é uma das grandes vitórias
dessa revolução: acabar com a auto-estima de
vocês! E achar que você realmente é terceiro
mundo mesmo. Com licença! Vocês são paulistas?
Vocês são donos de 60% do Produto Interno Bruto
desse País, cara! Vocês têm mais dinheiro
nesse Estado, provavelmente, do que a França. Não
é mole, isso. Ao mesmo tempo não é mais
"Estados Unidos do Brasil", é "República
Federativa dos Estados do Brasil", que foi o golpe. Centralizaram
o poder, todo o dinheiro de São Paulo vai pra lá
e eles fazem o que quiserem com o nosso dinheiro. Com o seu
suor, com o seu imposto, com a sua coca-cola que você
compra e paga duas ao invés de uma.
Arthur
- Às vezes eu me pergunto por que eu estou morando
aqui em São Paulo e não em qualquer outra cidade
do interior...
Sérgio
Dias - Mas não importa! Mesmo que você for
morar em qualquer cidadezinha do interior de São Paulo,
você ainda estaria vivendo num dos países mais
ricos do hemisfério sul. As suas estradas são
impecáveis. Pega as estradas de São Paulo e
vai ver... Vai andar nas do Rio, pra você ver o que
é bom. Agora, paulista é bom? É. Nos
somos melhores? Sim, nós somos melhores. E daí?
Alguém vai dizer alguma coisa contra? Eu tenho orgulho
de ser paulista. Não fui eu que disse que ia me juntar
na revolução, em 32, e que piquei a mula depois,
igual Minas Gerais, igual ao Rio Grande do Sul, largaram São
Paulo sozinho e graças a nós o Brasil tem uma
Constituição. Então a gente pode, sim,
cuspir no olho do Brasil inteiro. Porque sangue por esse País,
nós morremos. Nós, não. Quem sou eu pra
dizer isso? A gente tem que pelo menos honrar a quem fez isso.
E nessa história, no caso os seus professores, que
devem estar se comendo por dentro de ódio pelo que
foi feito com vocês e com eles mesmos, foram impiedosamente
destruídos e devastados. É fácil a gente
falar disso, mas você nunca teve ninguém ameaçando
te seqüestrar e torturar você, cortar teu pinto
fora, te enfiar coiso no cu pra te dar choque, comer tua irmã
na tua frente. Nada disso vocês viveram. Isso a gente
viveu. A gente teve muita vez que sair por trás de
teatro fugido, ou coisa do gênero.
Rodrigo
- Ah, é? Chegou a acontecer com vocês?...
Sérgio
Dias - Ah, sim! Eu vivi uma revolução, que
é a que vocês vivem agora...
Rodrigo
- Mas vocês tinham consciência do que estava
acontecendo na época?
Sérgio
Dias - Consciência!? A gente era ameaçado,
caralho!! Meu pai foi preso.
Arthur
- Mas na época dava pra entender a situação,
ou era tudo meio confuso?
Sérgio
Dias - Não, era uma revolução militar.
Você não compreende isso porque você não
viveu. Se vocês estivessem na rua, vocês iam pra
cadeia. Porque o Ato Institucional nº 5 dizia que mais
de três pessoas juntas num lugar era manifestação
e você ia em cana. Isso é história do
Brasil. Acabei de dar um puta esporro na minha filha porque
ela está estudando e não sabe picas. Se ela
está a fim de prestar vestibular e de entrar em faculdade
é bom que ela saiba o que está fazendo, porque
senão ela vai estar tirando o lugar de alguém,
e nesta casa isso não acontece. Ou você é
bom no que faz ou desista.
Rodrigo
- Ser acima da média do resto do País é
ser bom?
Sérgio
Dias - Eu acho que o mínimo da obrigação
de cada um é exercer sua potencialidade a 105%, senão
pra que vive?
Ronaldo
- Os Mutantes tiveram isso também?
Sérgio
Dias - Com certeza, nós sempre fomos elitistas
em relação a sermos o melhor, sim. Eu era, sim,
o melhor guitarrista do Brasil aos quatorze, quinze anos de
idade. Você escuta os arranjos que a gente tocava com
o Gil, o Caetano, vai ouvir as citações clássicas
que eu estou tocando lá. Eu tinha um embasamento musical
profundo graças à minha mãe e ao meu
pai, mas eu abri os ouvidos. Eu podia ter sido um bostinha
igual à geração de oitenta...
Ronaldo
- Quais eram as suas referências no início
em termos musicais?
Sérgio
Dias - Bom, minha mãe era uma das maiores concertistas
do Brasil, ela foi a primeira mulher do mundo a escrever um
concerto para piano e orquestra. Ela é brasileira.
Foi tocado uma vez no Brasil esse concerto. Ela tem dois,
o outro é inédito. É esse meu nível.
Meu pai era um puta poeta, alguém desafiou ele a fazer
uma poesia por dia durante um ano. Ele fez por dez anos uma
por dia na coluna dele. Ele tem livros publicados, era um
puta cantor de ópera e um puta político. Ele
foi o braço direito do Adhemar de Barros durante a
vida inteira.
Ronaldo
- Mas você seguiu mais o caminho do rock...
Sérgio
Dias - Sem dúvida, era o que eu gostava. Nunca
recebi pressão dos meus pais pra eu escolher nada do
que eu quisesse ser. A única pressão que eu
recebi foi quando eu disse pra minha mãe que era profissional
aos treze anos de idade, que eu ia sair da escola. Ela disse
"tudo bem, você sai da escola, só que agora
que você é profissional, assim como eu, você
ganha seu dinheiro e paga tudo que é seu". Em
seis meses eu tava ganhando mais dinheiro do que ela me dava,
dando aula.
carreira
internacional e discos inéditos
Rodrigo
- Sérgio, como foi a sua vida nos Estados Unidos?
Sérgio
Dias - Eu morei lá durante dez anos, direto.
Rodrigo
- E por que você resolveu seguir carreira lá
após o fim dos Mutantes?
Sérgio
Dias - Foram circunstâncias. Eu sigo o que a vida
me aponta. Na época eu tinha separado dos Mutantes,
tinha separado da minha mulher, eu tava começando a
fazer um trabalho com Sean Car, porque eu tinha conhecido
ele na Itália, em 77. Ele veio pro Brasil tocar com
o John McLoffen, a gente tava fazendo um monte de coisas juntos.
Aí eu gravei um disco aqui, ele veio pra cá
pra fazer meu disco, aí ele me convidou pra fazer a
turnê dele lá. Ao mesmo tempo eu conheci uma
menina lá com quem mais tarde eu vim me casar, e aí
ao mesmo tempo o Eddie Offord, produtor do Yes, veio pro Brasil,
de quem na realidade eu era fã. Ele estava pensando
em se mudar para o Brasil e trazer o estúdio dele,
então botei ele em contato com todo mundo da Globo,
obviamente em uma semana ele desistiu. Mas ficou amigo e operou
um som meu que eu fiz do lançamento desse disco no
Planetário, no Rio, e me convidou no caso pra produzir
um disco meu lá. Foi a gota dágua.
Ronaldo
- Esse disco é esse aqui, "Sérgio
Dias"? O primeiro internacional?
Sérgio
Dias - Não, é um outro que não foi
lançado porque eu tinha sotaque demais.
Arthur
- Mas você não tem interesse em lançá-lo?
Sérgio
Dias - Tem boas músicas, mas não sei. Isso
a vida resolve.
Rodrigo
- Tem o caso do Tecnicolor, que também tem uma
história parecida, que foi só lançado
há pouco tempo...
Sérgio
Dias - É, mas as quatro boas músicas do
Tecnicolor já tinham sido lançadas. Tanta coisa
se falou, tanta zona se fez a respeito desse Tecnicolor e
na realidade lançou e não aconteceu nada. Por
que não aconteceu nada? Porque os Mutantes não
existem mais. Então você bota um disco na rua
que foi feito em 1970 e você não pode ver o show,
não pode ver a banda, que é isso? É piada.
Arthur
- Você até gostaria de retomar os Mutantes,
né?
Sérgio
Dias - Não, a não ser que tivesse uma razão
concreta. Se fosse realmente uma coisa real, como era antes,
senão não teria o menor tesão.
Arthur
- Mas isso é possível de se moldar?
Sérgio
Dias - Não, isso não se molda, isso acontece.
Não se luta por um raio. Um raio cai quando ele cai.
Você pode até chamar. A gente já chamou,
o raio já caiu. Mas nesse caso é muito difícil.
Naquela época quando o Arnaldo saiu, quando a Rita
saiu, quando o Liminha saiu, por que que eu vou sair, porra?
Eu não mudei, eu era a mesma pessoa de sempre, então
eu vou fazer o quê? Vou acabar a banda só porque
os caras saíram? Se eles saíram problema deles.
Se realmente algum eu sentir essa necessidade de fazer Mutantes,
com certeza eu vou fazer. Agora pode ter certeza que eles
vão ser os primeiros a serem chamados.
Ronaldo
- Você acha que teria condições de
reunir o pessoal novamente, e fazer alguma coisa legal?
Sérgio
Dias - Enquanto a Rita continuar tão burra nesse
sentido, acho muito difícil.
Arthur
- Vocês se falam?
Sérgio
Dias - Muito pouco. A gente tava se falando mais há
um tempo, depois não sei porque diabo deu uma gelada,
eu não tenho paciência pra isso.
Ronaldo
- A história dos Mutantes é realmente como
é contada?
Sérgio
Dias - Não, tudo mentira. Muita bobagem, muito
mais simples do que vocês pensam.
Ronaldo
- Mas aquela amizade adolescente de vocês existia?
Sérgio
Dias - A nossa amizade eu acredito que ainda é
inabalável. Por exemplo, eu tenho o direito de falar
essas coisas que tô falando em relação
à Rita, porque eu falo isso na cara dela, entende?
Tem uma música nesse último disco que é
feita pra ela: "Everywhere I Go". Esse música
é um retrato de um papo que a gente teve.
Ronaldo
- Você gravou três músicas em inglês
neste disco. Você tinha alguma intenção
de divulgação no mercado externo?
Sérgio
Dias - Não, eu tenho um monte de discos lançados
lá fora. Quando eu faço um disco pra fora eu
faço pra fora. A inércia de estar trabalhando
e vivendo dentro do inglês tantos anos foi muito difícil
pra eu quebrar. Eu adoro gravar em inglês. Cantar em
inglês é dez vezes melhor do que cantar em português,
rock n roll, pelo menos. Agora bossa nova, samba,
não soa bem em inglês.
Ronaldo
- Os Beatles foram a maior influência dos Mutantes?
Sérgio
Dias - Não, de jeito nenhum. No início a
gente ouvia de Les Paul e Mary Ford a April Stevens, ouvia
Brenda Lee, The Mamas & Papas, ouvia Beatles, ouvia de
tudo.
Ronaldo
- E em termos de Brasil?
Sérgio
Dias - Celly Campello, Elis Regina, mais tarde...
vaia
no festival
Ronaldo
- E como foi o lance com o Gil e o Caetano chamando vocês
pra tocar com eles na época dos festivais?
Sérgio
Dias - O que aconteceu foi o seguinte: Eles estavam querendo
alguma maneira de botar guitarras, ou alguma merda do gênero.
Porque na realidade não era bem isso. Era mais conseguir
um tempero que eles não eram capazes dentro da Bahia,
o que é talvez a internacionalidade, e a gente tinha
isso. Tinha um carinha que era o Caetano Zama que trabalhava
na TV Bandeirantes, onde a gente trabalhava e que junto com
Chiquinho de Moraes armou da gente pegar e fazer uma gravação
com a Nana Caymmi que era "Bom Dia", que foi a primeira
gravação que eu li cifra na vida. Quando a gente
foi gravar a Nana era casada com o Gil e o Caetano tava lá
também, e na realidade eles estavam olhando a gente
e eu não tinha a menor idéia. Aí a gente
gravou, tal, foi fantástico, um barato. Aí depois
eles vieram com a história de a gente fazer alguma
coisa junto. A gente teve uma puta repulsa no começo,
porque a gente, como eu digo na música, "não
gosto de samba, sou doente do pé, sou da Pompéia,
da Praça da Sé, yeah!". Mas quando o Gil
mostrou as músicas dele e eu vi a profundidade harmônica
daquilo, aquilo me encantou. Não era samba burro, era
extremamente inteligente. Gil é um gênio. Então
óbvio que ia rolar, então rolou. Agora se fosse
qualquer outro cara que viesse mostrar a música só
pra fazer o festival a gente mandava o cara tomar banho e
dizer: "sinto muito, não é a nossa, tchau".
Arthur
- Teve um episódio em um dos festivais que o Caetano
foi vaiado pra caramba durante a música "É
Proibido Proibir", onde vocês o acompanhavam. Qual
foi a reação de vocês quando o Caetano
começou a discursar contra a atitude do público?
Sérgio
Dias - A minha reação foi esquivar dos ovos
e das cadeiras, por isso que a gente virou de costas.
Ronaldo
- A impressão que dá é que vocês
estavam tirando um barato, estavam se divertindo...
Sérgio
Dias - Não, não dá pra você
se divertir quando tem 3.500 pessoas jogando coisa em você.
Arthur
- Mas vocês não pararam de tocar...
Sérgio
Dias - De jeito nenhum, a gente tava mostrando: "O
quê? Ah é? Engulam."
Arthur
- Precisava ter mais registros disso...
Sérgio
Dias - Bom, foi convenientemente queimado nos incêndios
da Record.
Ronaldo
- A partir desse momento ficou pesada a perseguição
política, não foi?
Sérgio
Dias - Com certeza, foi. A gente teve que sair muita vez
da Sucata pelos fundos, antes do show acabar, porque avisavam
que ia ter uma batida, coisa do gênero. Eu cheguei a
tocar com uma fileira de policiais, em Minas Gerais, com cassetete
elétrico. Se alguém se levantasse tomava choque.
Aí eu parei o show e mandei todo mundo ficar de pé.
Aí quando eles viram 2.500 pessoas de pé contra
os dezinhos da frente eles entenderam que eles não
tinham tanto poder assim.
Arthur
- O que esses caras que estavam do lado da ditadura tinham
na cabeça?
Sérgio
Dias - O que você acha que tinha na cabeça
desses caras? Loucura.
Arthur
- Porque eles também são povo...
Sérgio
Dias - Não, eles não são povo, é
diferente a condição. Eles são torturadores.
Rodrigo
- Mas não é um pai de família mesmo
assim? O cara chega, olha pra filha dele e põe a cabeça
no travesseiro mesmo assim...
Sérgio
Dias - É, só que é a mesma coisa
que você falar do Hitler, Gestapo [polícia secreta
nasista], e da SS [guarda pessoal de Hitler]. Eles acreditavam
no que estavam fazendo. Era muito bem feita a coisa. Você
está indo lá lutar pelo teu país porque
aqueles caras são comunistas e sua filha vai ser estuprada
pelo Stalin. É por aí a história. Então
o carinha ia lá dar porrada no inimigo, você
era o inimigo.
televisão
e rádio
Ronaldo
- Tem uma faixa no seu disco que chama "Escravo
da Revolução", na qual você faz uma
crítica a televisão, não é?
Sérgio
Dias - Bom, tem uma frase que fala: "Como faustos,
como ninfas, num domingo infernal".
Ronaldo
- O que você acha da televisão do Brasil
atualmente?
Sérgio
Dias - Que televisão? Eu não assisto. Aqui
na minha casa não tem isso, só tem a cabo. A
TV aberta não tem nem o que criticar, isso é
o pior lixo que existe na face da Terra. Isso é pra
idiotizar completamente o povo brasileiro inteiro. Quando
você vê a Carla Perez representar o Brasil no
festival de Montreux ...
Ronaldo
- O que você acha de fazer uma música legal
com uma letra interessante, com mensagem e a gente não
ter acesso a ela?
Sérgio
Dias - Como "não tem acesso a ela"?
Ronaldo
- Não, a gente tem, mas a maioria não tem.
Rodrigo
- A rádio não toca...
Sérgio
Dias - Ah! Agora, vocês telefonam pras rádios?
Ronaldo
- Claro!
Sérgio
Dias - Pedindo a música?
Ronaldo
- Pedindo a música.
Sérgio
Dias - É mesmo?
Ronaldo
- Sabe o que me responderam uma vez? "Essa música
eu não posso tocar porque não tá na programação".
Sérgio
Dias - E por que não está na programação?
Ronaldo
- Jabá, é lógico.
Sérgio
Dias - Lógico. Agora se vocês tivessem uma
unidade, aí a internet funciona. Mandem cartas pro
seu congressista, é assim que funciona nos Estados
Unidos. Quando você quer obrigar um congressista a fazer
alguma coisa, chegam 400 mil cartas do estado que elegeu ele
dizendo: "Olha, é bom você promulgar essa
lei aqui, senão você vai pro saco". Então
o que vocês podem fazer, vocês devem ter um mailing
list e dizer: "olha, esses canalhas dessa rádio
tal não querem tocar tal música, tal música,
tal música, porque essa música não é
paga porque não tem jabá e ela reflete o que
a gente acredita. Vamos encher esses caras de cartas, vamos
atacar esses caras, vamos fazer isso, entende? Se vocês
acreditam na coisa, vocês têm que lutar por ela.
Porque, pensando do meu lado, o quanto de poder de fogo eu
tenho se vocês não se envolvem? Vocês são
a minha gasolina.
Ronaldo
- Porém, o legal da internet é que a gente
ficou sabendo do seu disco novo por meio dela.
Sérgio
Dias - Eu uso a internet pra caralho. A única coisa
que eu critico nesse caso é a falta da coisa física.
Se você mandar um e-mail pra uma rádio ele é
deletado na hora, mas quando você manda uma carta é
outra história. É físico. Agora se o
cara recebe 400 cartas, 500, mil, duas mil, a história
é outra.
Ronaldo
- Você acha que o ideal seria uma campanha com
o congressista?
Sérgio
Dias - Não, eu não tô falando disso.
A gente tá falando de um problema específico.
Por exemplo, eu fiquei surpreso de você ter falado que
você ligou pra rádio, eu achei do grande caralho.
Porque é o que a gente fazia. A gente ligava pra rádio
pra pedir pra tocar a Rita Pavone.
Ronaldo
- E tocava na época?
Sérgio
Dias - Tocava. A gente enchia tanto o saco e o fim das
contas tocava. Não tinha essa sujeira. Então
se vocês estão vivendo e são escravos
da revolução, porque o cara da Sony pagou vinte
pau por cada música deles pra tocar duas, três
vezes por dia no rádio, você tem que engolir
essa merda. E o que você vai fazer a respeito contra
a cultura que está sendo imposta a você? Não
é pra mim. Eu tô cagando e andando pra isso.
Minha vida tá ganha. Onde mais eu posso ir depois de
tudo que eu já fiz? Sucesso? Dinheiro? Pra fazer o
quê? Não me interessa nada disso. Me interessa
é que vocês lutem. Não precisa ser pra
mim, pode ser pra qualquer banda. Mas se tem alguma coisa
que vocês acreditam vocês têm que agir ativamente,
concretamente e forte. Às vezes a internet é
um puta elemento, mas é um elemento, não pode
se submergir dentro dela. Essa coisa de você ter ligado,
fantástico! Agora imagina se 5 mil tivessem ligado,
o que que os caras fazem? Aí o cara vai tomar uma porrada.
"Tem 5 mil nego, parou o telefone, para a rádio".
Vocês não lembram do Sepultura? Que não
queriam botar eles no Hollywood Rock. Os caras receberam tantas
cartas que tiveram que chamar o Sepultura. O Sepultura é
um grande exemplo de atitude no Brasil. Os caras falaram:
"Ah é, vocês não querem a gente?
Pau no seu cú, vou pra Inglaterra, vou pros Estados
Unidos". Outro dia eu vi um filme na televisão
e tinha na casa do cara um poster do Sepultura. Eu fui pra
Miami, tô lá com um amigo meu, a gente pediu
uma pizza e chega um garotinho japonês e pergunta: "Vocês
são do Brasil? Sepultura né, Angra né?"
, falou de outra banda que eu nunca tinha ouvido falar na
minha vida. O japonês sabia 10 vezes mais do que eu.
drogas
Arthur
- Você concorda com a O.M.B.(Ordens dos Músicos
do Brasil)?
Sérgio
Dias - De jeito nenhum. Em hipótese alguma.
Arthur
- Você tem carteirinha?
Sérgio
Dias - Eu tenho. Sou obrigado, senão não
posso tocar.
Arthur
- Tem gente que conseguiu na justiça autorização
pra tocar sem a carteirinha.
Sérgio
Dias - Acho isso genial. E já botei meu nome junto
na coisa lá da internet. Porque eu acho que isso é
inconstitucional, se eu não me engano.
Ronaldo
- Em relação às drogas, o que você
achou da demissão da Soninha pela TV Cultura, após
ela ter declarado na revista Época que fuma maconha?
Sérgio
Dias - Sim, eu vi alguma coisa a respeito, mas não
cheguei a ler. Isso é uma total hipocrisia, agora por
que é que vocês não estão na rua
lutando contra isso, porra? E vocês vivem falando dos
tais dos anos 60, né? Assistam, vão ver o povo
na rua lá. Por que as universidades não fazem
nada contra isso? Vocês não fumam maconha?
Todos
- Na verdade não.
Sérgio
Dias - Não, tudo bem, mas vocês não
são a favor disso?
Rodrigo
- A gente é contra a hipocrisia, na verdade...
Sérgio
Dias - Sim, na realidade vocês são a favor
da liberdade de ação.
Rodrigo
- É que na realidade o país inteiro considera
a maconha como uma droga não tão terrível
assim.
Sérgio
Dias - O mundo inteiro sabe que a maconha não é
uma droga. Droga é definida pelo fato de te causar
dependência. Todo mundo sabe que a maconha não
causa dependência. Vamos voltar ao velho jargão,
vamos comparar então ao cigarro que dá câncer
e os caras ganham dinheiro. Aí pode, né?
considerações
finais
Sérgio
Dias - Durante a entrevista eu falei tudo que acredito.
Eu tô agindo, mas eu não tô só dentro
da internet, agora eu tô fazendo shows nos quais eu
tô tocando músicas, gravei um disco para o Brasil,
porque eu vi o que tava acontecendo com a minha filha. Quando
eu vi o que estava acontecendo com a minha filha eu fiquei
puto, quando eu vi o que tava acontecendo com nosso legado
de música, arte, cultura, ideais...opa! Eu não
vou quieto não para a sepultura! Eu vou lutar. Os Mutantes,
quando a gente começou, a gente não tinha a
menor pretensão de vender dois ou três ou quatro
discos ou o que fosse. Agora olha o que aconteceu, com três
carinhas que nasceram, dois na Pompéia e um na Vila
Mariana, que se juntaram e fizeram o que acreditaram. Até
hoje é o que é. E hoje nós somos a definição
da palavra mutantes dentro do Delta-Larrousse.
O site
do Mutante é www.sergiodias.com.br
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