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Entrevista - Sérgio Dias | parte 1 | parte 2 |

“O sonho é conquistar
a mulher do patrão”

Mais ou menos meia-noite e meia de uma sexta feira, nós do Roquenrou, Arthur Tofani, Rodrigo EBA! e Ronaldo Branco estávamos sendo recebidos por Sérgio Dias, lendário e eterno guitarrista dos Mutantes. Noite quente, roupas pretas e meias brancas, nos levou ao seu home studio, onde nos deixou à vontade para fazermos uma entrevista, o que acabou sendo deixada de canto para um bate-papo informal, muito mais proveitoso.
Começamos a conversar antes mesmo de podermos preparar o gravador. A entrevista segue do ponto onde falávamos da dupla Sandy & Júnior. Não sabemos porque chegamos nesse assunto, mas a transcrição começa de onde o gravador pegou. Precário, mas com tendência a melhorar.

Sérgio Dias - ...Estes caras estão sendo preparados para serem isto desde os 12 anos de idade. Os caras não tiveram nem tempo de sonhar nem de pensar, eles já são isso. Eles ainda não estão nessa idade [de lutar por um ideal], mas pensa que uma menina e um cara como ele [o Júnior] por exemplo - ele sobreviveu a ela. E isso não é fácil não, viu... Sobreviver à Sandy é foda!

Arthur - É verdade...

Rodrigo - Do Júnior, você fala?!

Sérgio Dias - Sem dúvida... era pra ele já ter sido limado, bicho.... mas não foi. Ele sobreviveu.

Arthur - Eu não sei se ele sobreviveu por mérito

Sérgio Dias - Eu acho que sim, porque é a mesma coisa que voce falar dos Carpenters, entende? A gente não sabe o que realmente esse cara faz dentro da dupla.

Ronaldo - Mas... em várias bandas isso é assim

Sérgio Dias - Sem dúvida....

Arthur - Não... o que o Júnior faz dentro da banda é nada, isso é comprovado...

Sérgio Dias - É, mas você achar duas vozes que casem daquela maneira não é fácil. Isso porque eu trabalho nisso há muito tempo. Você achar um vocal coeso...

Arthur - Já viu uma música que ele canta sozinho?

Sérgio Dias - Não...não sei...

Arthur - Tem um clipe que ele tá fazendo isso.

Sérgio Dias - Eu acho que eu vi uma vez...

Arthur - Não veja...

Rodrigo - É uma música do Fábio Júnior na verdade...

Sérgio Dias - Olha... o único problema deles na realidade é repertório e maturidade, e a época em que eles vivem. Eles são o reflexo de vocês, entende? Isso é um fato!

Rodrigo - E você acha que esse excesso de marketing pode atrapalhar?

Sérgio Dias - De jeito nenhum... excesso de marketing nunca atrapalhou Beatles nem Rolling Stones....nem a Madonna.

Rodrigo - Porque a impressão que me passa é que eles são meio plastificados, apesar de serem bons.

Sérgio Dias - O que acontece é que eles são crianças, entende? E têm pais muito ativos em relação a eles, parece... é muito planejado e hoje em dia as carreiras são planejadas. Quer dizer, vocês estão vivendo o que programaram pra vocês viverem. Não é só Sandy & Júnior. Vocês estão vivendo isso. A internet é uma puta programação também, bicho... A televisão é massiva, música é massiva... Porra, não é brinquedo o que está acontecendo no Brasil.

Arthur - não só no Brasil

Sérgio Dias - É, mas aqui principalmente, é que tem uma revolução instalada aqui.

Arthur - Eu costumo falar sempre de um problema, mas é uma visão minha, de que a gente tem um problema muito sério de falta de criatividade gerando falta de criatividade, por exemplo você plastifica um negócio e entrega isso, e muita gente que tem capacidade vai acabar gostando dessa coisa plastificada e fazendo uma coisa mais plastificada ainda, entendeu? Porque na verdade aquilo é influência... eu sou músico influenciado por muita coisa que já é plastificada...

Sérgio Dias - Eu ouvi Roxxette, entende? Na época que eles saíram era a melhor coisa que tinha saído no momento.

Arthur - Mas o que eu digo é exatamente isso, até hoje eles podem ser muito melhores do que muita coisa que está saindo por aí com influência deles, e isso está crescendo como uma pirâmide...

Sérgio Dias - Por exemplo os fatídicos Mutantes, e a quem a gente influenciou. Não era bem essa a idéia nossa. E é por isso que eu estou tocando aqui de volta, por isso que eu tô no Brasil, pra que fique bem claro que a idéia nossa não era Rita Lee... nossa idéia era outra história... Tinha muito mais a ver com atitude e rebeldia e juventude...

Arthur - E esse é um ideal seu?

Sérgio Dias - Não, esse é um ideal seu! Mas eu tô aqui mostrando, de volta, como é que se faz.

Arthur - Mas você tá nessa briga sozinho ou com eles?

Sérgio Dias - Não, eu tô com vocês, entende? ...Com quem? Com o Arnaldo, com a Rita? Não, de jeito nenhum. Mas tem um monte de gente que tá pensando da mesma maneira.
[barulho de modem conectando no cômodo ao lado...]
Não precisa ser Arnaldo e Rita, isso já aconteceu. Nem precisa ser eu.

Arthur - E por exemplo, Pato Fu gravando vocês... você acha que Pato Fu é uma banda boa pra se gravar isso? [Pato Fu gravou em seu álbum "Ruído Rosa" a música "Ando Meio Desligado", dos Mutantes.] Eu tenho uma visão de que Pato Fu é uma das coisas que sobra de bom...

Sérgio Dias - Eu acho que quando eles se livrarem desse carma que eles mesmos compraram para conseguir auto promoção, quem sabe eles possam vir a ser uma banda respeitada.

Rodrigo - Mas que carma seria esse?

Sérgio Dias - De "os novos Mutantes", ou qualquer coisa do gênero, que é uma piada isso. Não tem o menor sentido.

Arthur - Eu acho que sim, mas eles ganham, na minha opinião também, por eles serem uma banda insossa mas que tem muita coisa interessante pra dizer, que os outros não dizem, simplesmente.

Sérgio Dias - Bom, eu ouvi o Disco. É escarrado o quanto eles metem a mão na gente, entende?

Ronaldo - A versão do "Ando Meio Desligado"...

Sérgio Dias - Não é só isso mas, por exemplo... Eles basearem o disco deles no theremin, essa coisa toda, pô, a gente cansou de usar theremin, bicho. E nosso theremin nós que construímos.

Rodrigo - É? Vocês mesmos construíram?

Sérgio Dias - É. Meu irmão construiu.

Rodrigo - Vocês também manjam alguma coisa de eletrônica?

Sérgio Dias - Alguma? Essa mesa [aponta para a mesa de som] quem fez foi meu irmão. A gente sempre foi Avant Garde, a gente nunca iria imitar uma banda. Acho que isso é desprezível. Imitar uma banda ou se basear nisso? Tá louco, Deus me livre!

Arthur - Eu penso assim que na época em que vocês começaram a fazer isso existia uma idéia de "Vamos fazer alguma coisa completamente diferente", existia um sentimento de vontade disso.

Sérgio Dias - E vocês não têm isso?

Arthur - A gente, a gente aqui tem. Por isso a gente desenvolve esse trabalho, mas a maioria não.

Sérgio Dias - Então deixa eu te falar uma coisa. A razão pela qual seu site tá crescendo é porque, assim como vocês, tem um monte de gente que pensa e sente a mesma coisa. Por isso que todo mundo tá olhando pra trás, por isso que o próprio Pato Fu olha pra trás, por isso que a Cássia Eller grava "Top-Top", por isso que o Kid Abelha grava Mutantes, por isso que todo mundo grava Mutantes. Sean Lennon ouve Mutantes, até Paul McCartney tá ouvindo Mutantes, sei lá...

Ronaldo - ...Belle and Sebastian veio, tocou Mutantes

Sérgio Dias - Pois é... agora tá a Shakira aí, pessoal aí tá querendo me conhecer. Legal, jóia, bacana, mas uma curiosidade é um negócio legal. Quando vira uma coisa assim, quando sai quatro páginas no New York Times e vira uma coisa séria... porque nós tínhamos substância. Bom? Era, mas porque a gente era o oposto do que se tá fazendo aqui. Que é o que? Você fazer uma demo pra sonhar que você vai... É igual o "Senhor F", a primeira música que eu escrevi: "O sonho é conquistar a mulher do patrão", quer dizer, é aquela coisa: fazer sucesso, mas a idéia é dar um chute no patrão. Vá pelo lado, vá pelo outro lado, seja você mesmo, seja honesto.

Arthur - Quem você acha que hoje em dia tá fazendo isso?

Sérgio Dias - As bandas que não tão ainda acontecendo, quer dizer, essa nova geração, que não têm abertura mesmo, não tem saída mesmo, então eles vão ter que achar outra saída... Porque essa geração anterior basicamente é uma geração de todo mundo tentando fazer alguma coisa pra ver se colava com a gravadora pra gravadora dar sustento a eles e eles virarem estrelas da noite pro dia, e de repente acho que a ficha caiu e entenderam que não tá dando certo

Arthur - E até tinha muita gente boa que "ah, tudo bem", começa entrando na jogada deles e a hora que você já tiver com um pouco mais de nome, se solta, assim como o Lobão...

Sérgio Dias - Só que não acontece, acontece o oposto

Arthur - Justamente. Muita gente acaba ficando naquela porque acaba dependendo da gravadora

Sérgio Dias - Sem dúvida.

Arthur - Mas quem você acha que tá seguindo o caminho?

Sérgio Dias - Bom, eu conheci algumas bandas, tem duas meninas no Sul, conheci algumas pessoas no sul do país, que não estão dentro desse eixo Rio-São Paulo, que tá completamente apodrecido, e que tão fazendo coisas muito interessantes. Tem um pessoal também amigo meu de Taubaté, os Diamond Dolls... tem um pessoal forte. Tem tanta coisa, eu tô com uma pilha assim [mostra com as mãos] de CDs pra ouvir, não tenho tempo. É uma pena, no momento, pelo menos, não tenho tempo.

Arthur - Pô, a gente vai deixar mais um com você...

[Risos]

Sérgio Dias - Tempo... tempo hábil, eu tô no meio de construção, preparando show, vai ter o Tuca agora

Rodrigo - Ah, vai ter show no Tuca?

Sérgio Dias - Dia 7 e 8 (de dezembro) no Tuca. Por que no Tuca? Justamente porque é uma questão de atitude... não interessa fazer o Palace, não interessa fazer essas outras coisas, me interessa fazer o Tuca.

Rodrigo - Fora que o Tuca é muito bom

Ronaldo - Já estão certas as datas?

Sérgio Dias - Amanhã já estão os cartazes na rua. Então, se puderem divulgar, façam isso, precisa dessa ajuda, dessa força, porque nós não estamos fazendo o que todo mundo tá fazendo

Ronaldo - Não só divulgar como ir!

Sérgio Dias - A gente tá fazendo questão absoluta de não trilhar o caminho desses caras. Então se forem 200 pessoas no Tuca eu tô contente.

Ronaldo - Você tá tocando músicas dos Mutantes também no show?

Sérgio Dias - Esse show vai ter muito Mutantes. Vai ter. Esse vai ter. o outro tinha 4. O que eu acabei de lançar o disco, Estação da Luz, além disso, no show eu botei quatro músicas de Mutantes depois, quando acabava (as músicas do) disco, só que agora tá entrando mais oito.

Ronaldo - O pessoal pede, né?

Sérgio Dias - Não tem dado pra pedir, tem sido forte demais o show. Quer dizer, não sei o que vai acontecer dessa vez, vai ser uma porrada. Vai ser muito forte. Vai ser quadrafônico...

Arthur - Você gosta de botar Mutantes assim? Porque tem gente que, por exemplo, o Roger Waters vai vir no Brasil e a gente sabe que não é da vontade dele tocar Pink Floyd.

Sérgio Dias - Quem disse?! Ele que fez, bicho, é lógico que sim!

Arthur - Não, ele gosta, mas tenho certeza que se ele pudesse tocar as músicas dele e fazer sucesso com as músicas dele pra chegar pro David Gilmour e falar "Não, olha, eu consigo mais do que você"

Sérgio Dias - Não, mas isso é uma grande utopia, o David Gilmour também não consegue.

Ronaldo - Ah, o sucesso do Pink Floyd é o David Gilmour tocando as músicas do Pink Floyd antigas

Sérgio Dias - É lógico

Arthur - Não, isso é verdade.

Sérgio Dias - Mesma coisa o McCartney. Vai no show do Paul McCartney, que que tem lá?

Rodrigo - É inesquecível justamente por ter Beatles no show...

Sérgio Dias - É lógico, não tem como. O grande erro da Rita, por exemplo, é não entender que antes dela ser Rita Lee ela é uma Mutante. E ela briga contra isso há anos e anos e sofre igual um boi ladrão por causa disso. E no fim das contas quem sai lá no New York Times somos nós, não é ela. Deve ter doído a cárie dela legal, né? Porque ela faz de tudo pra se manter na mídia, tá gravando até Beatles, não entendo isso. Se vai gravar uma coisa por que não grava Mutantes? É muito melhor... tem tudo a ver com Brasil, puta touca, né?

Ronaldo -Tem a ver com o passado dela, né?

Sérgio Dias - É lógico, mas não, ela renega isso de tudo quanto é maneira, não consigo entender isso... Quer dizer, é opção dela...

Rodrigo - Mas você acha que faria sentido ela regravar Mutantes, pelo fato de mexer nos arranjos?

Sérgio Dias - Qual é o problema?

Rodrigo - Não são gravações intocáveis?

Sérgio Dias - Eu não sou purista, bicho. De jeito nenhum.

Arthur - Vocês fazem alterações nas versões que vocês tocam agora nos shows recentes?

Sérgio Dias - Lógico!

Arthur - Por que senão deve ficar meio de saco cheio de ficar tocando sempre tudo do mesmo jeito

Sérgio Dias - Não é nem só isso, é impossível você tocar com outras pessoas exatamente a mesma coisa que se tocava com o Arnaldo e com a Rita. Não soa a mesma coisa, então vou fazer o que essas pessoas... o segredo de se fazer uma boa música é você tirar o melhor de cada um, então não posso querer fingir que o cara é o Arnaldo e que a outra pessoa é a Rita que não funciona assim. Tem algumas músicas que eu vou tocar que têm um arranjo pré-estabelecido, não tem como sair dele. "Vida de Cachorro" é uma, como é que eu vou refazer Vida de Cachorro? É uma idiotice, não tem porque. Só vai ter a Esméria que vai cantar lá e fazer um serviço talvez melhor do que da Rita, porque na época a Rita não conseguiu cantar isso direito, ela tava com a voz bem pequena, ela ainda não tinha achado a definição vocal.

Arthur - Vocês se preocupavam com isso de tentar fazer a música pro alcance vocal?

Sérgio Dias - Em relação ao tom ser certo, essa coisa toda, isso aí? Não tanto, a gente não tinha tanta experiência assim, entende? Por exemplo Vida de Cachorro é uma música que é impossível tocar meio tom abaixo, é tudo aberto, mas não é difícil de cantar, eu canto ela, quer dizer dentro do meu range de voz ela cabe, quer dizer, não seria problema pra Rita cantar, entende? A gente tem o range muito próximo.

Arthur - talvez ela não goste e não quer falar...

Sérgio Dias - Mas "O Meu Bom José", também ela teve problema gravando isso... com Le Premier Bonheur du Jour também teve problema... todas essas baladas ela teve problema. Dentro da banda ela funcionava. Ela só se desenvolveu mesmo como cantora depois que ela saiu dos Mutantes. Sei lá... teve que chamar um zé e... se resolver.

Clique aqui e confira a continuação da entrevista com Sérgio Dias

 

“...Eu tô aqui mostrando, de volta, como é que se faz”