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Entrevista - Marcelo Camelo

Mudar é o natural. Ficar igual é que é forçar um processo.”

Após o contato inicial de Ronaldo Branco e Rodrigo EBA!, o nosso cartunista oficial, Mazaia, foi quem conversou com Marcelo Camelo por telefone e realizou mais esta entrevista exclusiva Roquenrou!!

Roquenrou - Em relação ao primeiro CD, como foi a participação do Roger (Ultraje a Rigor), na música "Bárbara"?

Marcelo Camelo - Foi um negócio meio estranho pra gente, porque foi um negócio meio colocado pela gravadora, que o disco teria que ter uma participação especial de algum artista, e nos foram colocadas algumas opções, dentre elas o Roger e naquela situação nos pareceu a melhor opção de todas, e acabou sendo bacana assim, acho que todo mundo que faz rock no Brasil de alguma maneira ouviu Ultraje a Rigor, principalmente as pessoas da minha geração. A banda fez muito sucesso na época em que a gente era moleque, dançava nas festinhas e tal. Então acabou sendo bacana pelo curioso de conhecer o cara e tal, do cara pintar lá no estúdio, gravar a música, ele gostou a beça da música também. Mas não foi uma idéia nossa.

Roquenrou - Pode-se considerar que vocês começaram a ficar mais famosos no Abril Pro Rock ?

Marcelo Camelo - É cara, mais ou menos. O Abril Pro Rock na verdade foi um degrau acima do nível do lugar onde a gente estava, aqui no Rio. A gente passou dois anos tocando no underground do Rio e a gente já tinha algum nome por aqui na imprensa local. O pessoal que escreve sobre o underground, mesmo nos jornais maiores, as pessoas que são um pouco mais atentas ao que tá rolando na cena fora das gravadoras, na cena independente, sempre falou muito sobre a gente desde o começo e aí desde do convite pra ir pro Abril Pro Rock até depois do nosso show lá falou-se muito sobre a gente aqui nos jornais do Rio. Depois do convite a gente conseguiu meia página do Jornal do Brasil , uma matéria sobre a gente e depois do Abril Pro Rock o Globo fez uma matéria quais eram os melhores shows e o nosso ficou em primeiro lugar junto com uma outra banda, que eu não me lembro o nome agora. Mas enfim, acho que o Abril Pro Rock serviu para que a imprensa falasse um pouco mais da gente naquele momento, e que por isso a gente conseguisse um contrato com uma gravadora, mas não tornou a gente mais conhecido, não.

Roquenrou - Abriu as portas pra um contrato com a gravadora então?

Marcelo Camelo - Já tinham algumas gravadoras de olho e foi meio que o aval para rolar o contrato.

Roquenrou - Como foi a escolha de "Anna Júlia" como a primeira música de trabalho do primeiro disco?

Marcelo Camelo - É sempre a gravadora quem escolhe, não tem jeito. A gente tenta brigar, mas no caso de "Anna Júlia" a gente de maneira nenhuma discordou, a gente achava uma música bacana como primeira música de trabalho. Dali em diante é que houveram os problemas...

Roquenrou - No caso de "Primavera", a segunda música de trabalho é que houve a pressão, por ser mais parecida, né?

Marcelo Camelo - Exatamente, foi um pouco mais problemático porque a gente imaginava que tinha que ser uma música um pouco mais pesada pra mostrar o outro lado do disco.

Roquenrou - Inclusive quando eu escutei o primeiro disco eu pensei que a segunda música de trabalho fosse "Barbara", até pela participação do Roger.

Marcelo Camelo - É, mas não acho que seria uma boa música de trabalho, não.

Roquenrou - Qual seria?

Marcelo Camelo - Não sei. Eu sempre achei , quando o disco ia sair, que "Primavera" seria a música de trabalho, o carro chefe, nunca imaginei que fosse "Anna Júlia". Até porque foi uma das últimas músicas que a gente compôs, e a gente não estava ainda habituado a tocá-la.

Roquenrou - Uma coisa que chama a atenção é que muitos arranjos de sopros são compostos por vocês mesmos. Qual foi a formação musical da banda?

Marcelo Camelo - A nossa formação musical é muito parecida com qualquer pessoa da nossa idade. Todo mundo toca desde muito novo, onze, doze anos, mas ninguém nunca estudou muito a sério, é todo muito meio auto-didata, todo mundo fez uma aulinha aqui outra ali, mas ninguém nunca fez escola de música, nada muito mais sério do que isso. E a nossa maneira de fazer arranjo a gente acompanha as melodias e passa pro nosso trompetista que escreve elas na partitura.

Roquenrou - As letras de vocês falam predominantemente de amor. Vocês de consideram uma banda temática?

Marcelo Camelo - Eu acho que não. Todo mundo pergunta isso pra gente como se fosse uma coisa incomum a gente cantar sobre o amor e quando você vai observar a música popular brasileira, escolher um compositor de Noel Rosa a Caetano, Chico, Milton Nascimento, a imensa maioria das pessoas falam sobre o amor o tempo inteiro. Porque você pode falar sobre o amor de mãe pra filho, você pode falar de amor de perda, de amor de esperança, de amor de saudade. O amor não é um tema, o amor é uma situação com muitos sub-temas.

Roquenrou - Você concorda que houve uma mudança radical na sonoridade entre o primeiro e o segundo CD?

Marcelo Camelo - Concordo. Quando você tem a oportunidade de ficar dois anos viajando, com a mesmas pessoas, dividindo experiências, tocando juntos todos os dias, é inevitável que as coisas mudem. As coisas mudam independente disso na verdade. As coisas mudam na vida das pessoas e a gente vive coisas diferentes, vive experiências diferentes e eu acho que mudar é o natural. Eu acho que ficar igual é que é forçar um processo.

Roquenrou - É sempre bom buscar a mudança?

Marcelo Camelo - Eu acho que isso não é nem uma busca, cara. Isso na verdade é tentar ao máximo ser sincero no momento da banda e não tentar fazer um disco de manutenção do sucesso.

Roquenrou - A saída do Patrick se deu em virtude dessa mudança? Ele queria continuar tocando hard core?

Marcelo Camelo - É difícil falar por ele o que ele queria fazer. O fato é que ele não gostava do disco como o disco é, não gostava das composições, não gostava dos caminhos que os arranjos estavam tomando. Na verdade o tempo em que ele ficou na banda durante o processo de composição do segundo disco foi muito curto. Não dá pra dizer que ele não gostava das músicas arranjadas desse jeito porque ele não chegou a arranjar nada. Mas ele não gostava das composições, e não gostava do rumo que as coisas estavam tomando.

Roquenrou - Não teve ressentimentos com a separação?

Marcelo Camelo - Mais ou menos, o processo foi um pouco doloroso, sim. A gente não é amigo, a gente não sai junto, não conversa, mas enfim, são coisas da vida.

Roquenrou - Vocês estão a procura de um outro baixista?

Marcelo Camelo - A gente tá tocando com um menino chamado Gabriel Bubu, que é baixista da gente já há uns seis meses, se eu não me engano. Quem gravou o disco foi o Kassim, que é um cara bacana a beça, nosso amigo há muito tempo. A gente prefere que fique assim por hora. A gente pode chamar baixistas que são nossos amigos, que tenham características diferentes pra gravar determinadas músicas, e o Bubão é um cara legal a beça pra se viajar junto, é um ótimo músico...

Roquenrou - Eu assisti a um show de vocês promovido pela rádio 89 FM, aqui em São Paulo no SESC Itaquera, junto com a Plebe Rude, Catedral...Daí eu vi que o Amarante toca baixo também, e ele é bem assim, o "fogueteiro" da banda...

Marcelo Camelo - (risos) É, pois é. É aquele negócio que eu tava te falando sobre a vantagem de ter uma formação versátil, ao mesmo tempo que o Rodrigo (Amarante) vai tocar baixo numa música, o Bubu que toca baixo com a gente pega a guitarra. E tem outra música que eu toco baixo, que o Rodrigo canta, é bacana ter uma banda versátil por causa disso. Todo mundo pode brincar um pouquinho nos instrumentos, e não fica aquele negócio de cada um querer imprimir sua personalidade no que tá tocando. Fica todo mundo jogando pra música.

Roquenrou - Sobre o "Bloco do Eu Sozinho", qual foi a argumentação da Abril Music pra tentar impedir o lançamento do disco?

Marcelo Camelo - É, na verdade não foi impedir. A conversa que rolou foi que eles não queriam lançar o disco desse jeito, queriam que a gente regravasse o disco com outro produtor e com outro repertório, repensando os arranjos, enfim, queriam que a gente fizesse outro disco. E pra gente não fazia sentido, a gente achava que o disco era esse. E aí criou-se um impasse e por conta disso correu o risco durante alguns dias do disco não sair, da gente ficar meio sem gravadora, e aí a gravadora voltou atrás e sugeriu que a gente remixasse o disco com outro produtor e a gente indicou um engenheiro de som pra estar junto com a gente e a gente foi a todos os dias da mixagem. Foi o ponto comum que a gente encontrou. Foi um pouco mais demorado e mais doloroso do que podia ser mas acabou saindo do jeito que a gente queria.

Roquenrou - Na música "Cadê teu Suín-?" vocês estão falando sobre essa questão da gravadora querer ditar o rumo da banda? Tem uma parte que diz "Eu que controlo o meu guidom"...

Marcelo Camelo - É da indústria, de uma maneira geral, não é da gravadora em específico. Porque eu acho que a postura da gravadora não é pra ser tomada como solitária, sabe? A gravadora trabalha desse jeito porque corrobora com uma posição do mercado. É como esse lance de música de trabalho, de ter que ter uma música mais pegajosa pra rádio poder tocar. E se a rádio não tocar a música o disco não vende, então se a rádio não tocar a música a banda já tá descartada... Então o negócio é um pouco mais abrangente. Pô, queria eu que os problemas terminassem na gravadora. É uma questão muito mais de conjuntura de mercado e que envolve todas as camadas da indústria fonográfica.

Roquenrou - E o que você acha do MP3?

Marcelo Camelo - É, cara, eu acho complicado... Eu acho muito bacana essa democratização de alguma maneira, das pessoas poderem ouvir a música. Ao mesmo tempo você pensa que hoje em dia o MP3 ainda é uma coisa muito restrita às pessoas que têm dinheiro pra ter internet, às pessoas que conseguem ter um computador em casa. Mas você imagina que com o tempo isso vai se popularizar muito e vai virar um negócio muito mais corriqueiro do que é hoje em dia. Eu fico preocupado no entanto com a posição do artista, porque na verdade o direito autoral e o direito intelectual é a única coisa que o artista tem pra vender. É que nem você pedir pra um feirante disponibilizar as frutas dele na internet, pra todo mundo baixar de graça. É complicado, né? Você tira o emprego do cara de alguma maneira.

Roquenrou - Na página da banda vocês colocam muitos MP3 com versões de shows...

Marcelo Camelo - Sim, a gente coloca as versões ao vivo. Eu acho bacana que o MP3 seja usado principalmente por bandas que têm disco lançado nesse sentido, sabe? De colocar versões inéditas, de colocar cover, de colocar versão de show, versão acústica, e é isso que a gente faz geralmente. Acho que seria interessante esse enfraquecimento das gravadoras pela utilização do MP3 mas acho que deveria-se pensar em alguma maneira de algum dinheiro se reverter pros artistas. Porque senão é aquele negócio que eu falei, você pede pro cara dar a única coisa que ele tem pra vender.

Roquenrou - E vocês não gostariam de lançar em MP3 mixagem recusada do "Bloco do Eu Sozinho"?

Marcelo Camelo - Cara, não porque na mixagem que não rolou a gente tinha também alguns problemas com ela e os problemas que a gente tinha com ela a gente solucionou na nova mixagem. E a gente acha que o disco do jeito que tá é um ótimo disco. A gente acha que a outra mixagem não deixa nada a dever a essa.

Roquenrou - O nome Los Hermanos é um pouco devido ao fato de vocês gostarem de bandas latinas...

Marcelo Camelo - É, o começo da banda tem muito a ver também com uma banda aqui do Rio chamada Acabou La Tequila, que foi uma das primeiras bandas - que eu vi, pelo menos - a misturar música brasileira e cantigas de roda e samba com hardcore. É de alguma maneira uma homenagem a eles, uma referência, talvez...

Roquenrou - ...e de som latino, o que você acha legal? As bandas latinas muitas vezes usam instrumentos de sopro, metais...

Marcelo Camelo - Pois é, eu confesso que não sou um grande conhecedor de música latina. No entanto os dois últimos discos do Fabulosos Cadillacs são pra mim uns dos melhores discos de rock já feitos no mundo. O Fabulosos Calavera e La Marcha Del Golazo Solitario são dois discos que foram referências muito fortes principalmente para esse nosso segundo disco.

Roquenrou - A gente viu você fazendo uma brincadeira no João Gordo, de que a carreira de vocês é marcada como antes e depois dos Ramones. É isso mesmo? [Marcelo Camelo uma vez declarou que não gostava de Ramones e, apesar de outros integrantes do Los Hermanos gostarem, todos ficaram com a polêmica fama de não gostarem da banda.]

Marcelo Camelo - É um negócio curioso isso... Engraçado ver como as pessoas reagem a esse tipo de colocação, porque é curioso que as pessoas não permitam que você não goste de determinada coisa, você é obrigado a gostar. Sei lá, é estranho... Eu não acho bom pra música, não acho bom pra ninguém. Acho que o rock tem muito a ver com tentar dar um passo à frente, tem muito a ver com tentar fazer alguma coisa nova, tem muito a ver com tentar propor alguma alternativa. Isso é o rock alternativo, sabe? É o estilo de música que propõe alternativas pro que é vigente. E acho que esse negócio de ficar botando no pedestal artistas catedráticos é um pouco contraditório com a postura do rock. As pessoas respeitam muito mais uma banda que copia Ramones do que uma banda que tenta ir além.

Roquenrou - Num show que eu vi de vocês, no SESC Itaquera, tinha um indivíduo que ficava jogando pedra, acho que vocês estavam cientes...

Marcelo Camelo - A gente estava, tava um negócio meio perigoso, o cara tava ali jogando pedra "portuguesa"... Isso é um negócio muito louco, porque esse negócio de palco é uma coisa que distancia um pouco você do público e eu fiquei pensando assim, se eu não estivesse no palco, sabe, se eu estivesse no chão o cara jogaria uma pedra em mim também. Tipo, a vontade que dá é de chegar no cara, olhar no olho dele e falar: "Cara, eu sou uma pessoa que nem você, por que você tá me jogando pedra? Tá me jogando pedra por uma opinião estética que eu tenho?" Mas acho que essas pessoas que jogam uma pedra "portuguesa" na direção de outras pessoas não entendem esse tipo de comentário, sabe? São pessoas desprovidas de um mínimo de humanidade e seriam incapazes de entender que não se joga pedra em outra pessoa por nenhum motivo, por mais grosseira que seja a atitude da pessoa, por mais absurdo que a outra pessoa tenha feito, não se joga pedra em alguém.

Roquenrou - É, e depois, graças à esses caras que o roqueiro fica mal-falado, né? Cê vai em um show e o segurança vai agredir, porque roqueiro é violento... Tinha um monte de gente querendo curtir o show, querendo cantar as músicas e tinha o babacão querendo estragar...

Marcelo Camelo - É, e geralmente essa minoria que não gosta é muito mais ruidosa do que a maioria que quer ouvir o show, que quer cantar. Geralmente tem dois ou três arruaceiros que fazem muito mais barulho do que o pessoal que tá a fim de curtir o show.

Roquenrou - E no Rock in Rio? Rolou esses problemas ou foi na paz? Eu vi na TV passando um pedacinho, dizendo que vocês estavam arrebentando. Foi isso mesmo?

Marcelo Camelo - Foi, cara! O show foi bem legal! A gente ficou surpreso, não sabia. Porque a gente, quando tocou no Rock in Rio, a gente tava no final do processo de pré-produção do disco. A gente estava há uns seis meses e meio fora da mídia. Então a gente não sabia como é que ia ser, não sabia como a platéia ia receber a gente. Mas aqui no Rio é um pouco diferente a situação, porque as pessoas conhecem a gente de muito tempo, a gente vem tocando no Rio há muito tempo, então a gente tem um público um pouco mais forte aqui e pessoas que entendem mais a banda. E são pessoas que cantam todas as músicas e naquele show já tinha gente cantando música que a gente nunca tinha tocado, porque nego dá um jeito, baixa na internet, vai no ensaio pra ver, conta pros amigos e canta o refrão junto... É bacana porque a gente não tem um fã-clube muito numeroso mas as pessoas que gostam da gente gostam com muita sinceridade. E as pessoas se emocionam muito com as músicas, as pessoas cantam junto, as pessoas choram, isso é bacana. A gente prefere ter esse tipo de fã a ter as pessoas que tão indo só porque tá na moda, curtir aquilo porque não tem nada melhor pra fazer.

Roquenrou - E os show deste ano, como estão? Já estão agendados?

Marcelo Camelo - É, cara, a gente tá tentando fazer uma agenda. É um disco mais difícil porque é um disco que toca menos na rádio, então a coisa fica muito mais difícil pra girar, pra conseguir um número de shows. A gente trocou de empresário, tá com um empresário aqui no Rio, que é um cara que cuida um pouco mais de perto das coisas. A gente tá tentando marcar show em lugares menores, teatro... Tá um pouco difícil mas tamo aí, cara. Estamos firmes...

Roquenrou - Los Hermanos também poderiam lançar na banca de jornal?

Marcelo Camelo - Esse negócio de lançar na banca... Ou você precisa, como no caso do Lobão, ter uma carreira muito forte por trás pra apoiar, pra dar suporte a isso, pra que as pessoas conheçam o nome do cara e pra que a pessoa vá na banca e compre, ou então você precisa ter uma projeção de mídia como o Supla teve. Acho que nenhum dos dois é o nosso caso, por enquanto.

Roquenrou - Mas um dia vocês ainda sonham em depender menos da gravadora?

Marcelo Camelo - É, cara, é muito bacana você poder comandar cada parte do seu trabalho. A estrutura da gravadora é de alguma maneira bem feita. Se for bem aproveitada e se as pessoas da gravadora entenderem o que a banda quer e respeitarem a posição e opinião da banda é uma estrutura bem feita pra que a coisa funcione bem. Pra que o cara da imprensa saiba o que está acontecendo com a banda, pra que o cara da TV saiba, essa divisão de departamentos e tal é um negócio interessante pra banda se for bem utilizado. Eu acho que o grande problema das gravadoras é saber diferenciar os produtos que ela tem dentro do seu casting. É ela saber, por exemplo - no caso da Sony-, que Sandy & Junior têm que ter um marketing diferente do que O Rappa. Saber que cada caso é um caso e cada caso precisa de uma atenção específica. Isso eu acho que tem que partir muito das bandas, também. Não querer vender tudo como a mesma coisa, não querer que uma banda de rock venda a mesma coisa que uma dupla sertaneja. E as gravadoras acho que precisam trabalhar um pouco mais a longo prazo também. Tentar fazer projeções a longo prazo e conseguir fazer um casting razoável, de artistas que não vendam estupidamente, mas que vendam todo disco uma certa quantidade, que seja uma coisa mais palpável, um pouco mais concreta, que todo disco venda lá sua quantidade e não ficar dependendo desses fenômenos Pokémon, de tentar vender um milhão de cópias hoje e amanhã ninguém se lembra.

Roquenrou - E bandas novas? Você acompanha as bandas que estão surgindo?

Marcelo Camelo - Eu já acompanhei um pouco mais de perto. Eu fazia um zine com o Alex, que é o nosso produtor, e nessa época a gente recebia muita demo e eu ouvia um pouco mais. Sempre fui muito interessado, porque sempre achei que na cena alternativa existia muito mais gente tentando propor alternativas do que na cena estabelecida. Agora, confesso que conheço pouca coisa das gerações mais novas. Gostei muito do disco do Vado, um cara que já lançou CD mesmo, assim, independente. Conheço as bandas aqui do Rio, acho bacana, gosto dos Netunos... Mas não tenho ouvido tanto quanto ouvia não.

Roquenrou - E o CPM22, banda de hardcore aqui de São Paulo?...

Marcelo Camelo - Eu conheço o Luciano lá da MTV. O Luciano, guitarrista da banda, trabalhava na MTV, no departamento artístico. Então a gente se conheceu lá e eu já tinha o CD demo dos caras e tal. Acho bacana. Não é o som que eu ouço. Nunca na verdade, apesar de nosso primeiro disco ser de hardcore, nunca gostei muito de hardcore nem californiano nem novaiorquino. Então não é muito o som que eu ouço.

Roquenrou - Eu já vi você comentando que gosta de Chico Buarque. Seu gosto é mais voltado pra MPB?

Marcelo Camelo - É. De uns tempos pra cá, principalmente, logo depois do começo do Los Hermanos eu comecei a ouvir muito samba, então a minha referência de samba é muito mais forte que essa de hardcore e de rock, sabe? E o Chico foi um negócio que aconteceu, assim, há algum tempo.

Roquenrou - O tema de carnaval e o nome de seu segundo disco ocorreram por essa sua influência de samba?

Marcelo Camelo - Não, acho que não. O nome "Bloco do Eu Sozinho" tem várias razões de ser. Bloco do Eu Sozinho era um cara que saía no carnaval do Rio sozinho, fantasiado e ele fazia o bloco dele. É o lance da alegria que se basta em si, que não precisa de mais gente. Ao mesmo tempo o paradoxo do bloco. E é meio assim que a gente se sente. É meio assim que a gente fez esse disco, isolados num sítio, meio sem depender de ninguém, como se a gente quisesse alegrar só a nós mesmos.

Roquenrou - E como surgiu essa idéia de ir pra um sítio pra fazer o CD?

Marcelo Camelo - A gente já estava com essa idéia antes de entrar no esquema da pré-produção e foi ótimo! A gente foi pra um lugar onde não tinha televisão, onde não tinha telefone, foi bacana não ter interferência de ninguém, não ter ninguém ligando pra saber como é que tava indo lá, e acho que foi muito importante principalmente pelas expectativas que se tinham em relação à gente, em relação ao que a gente ia fazer e tal. Foi muito importante pra gente fazer um disco sem ninguém por perto.

Roquenrou - Vocês já estão fazendo composições novas?

Marcelo Camelo - Composição você não senta pra fazer. Você passa o ano fazendo, principalmente quando se tem a felicidade de poder viver de música. Então é como um trabalho mesmo. Você acorda e mesmo que você não sente pra compor aquilo está na sua cabeça, que é o seu produto, é o que você precisa fazer, estar sempre meio atento que você vai ter que continuar fazendo música.

Roquenrou - Vocês pensam em colocar alguma música nova no show?

Marcelo Camelo - A gente tá sempre colocando, cara. Sempre tentando colocar coisa nova, porque é muito chato. Ano retrasado a gente passou muito por isso, por conta do volume de shows, a gente teve que ficar um ano inteiro tocando, fazendo shows - sei lá, 20, 25 shows por mês -, e como a gente não tinha tempo de ensaiar eram 20, 25 shows iguais, sabe? E é um negócio que fica um pouco chato. Hoje em dia já é mais legal porque a gente tem mais músicas então a gente consegue mudar um pouco o set de show pra show.

Roquenrou - Vocês acham legal tocar covers no show?

Marcelo Camelo - A gente sempre teve um pouco de receio em relação a isso, porque cover tem dois papéis distintos: o primeiro deles é o que muitas bandas fazem e a gente discorda veementemente é usar um sucesso pra levantar a platéia e fazer a platéia esquecer que sua banda não tem grandes sucessos. A gente sempre preferiu comprar a briga e tocar músicas nossas, mesmo que não fossem grandes sucessos e que, se as pessoas saíssem do show com uma impressão ruim que fosse pela impressão ruim sobre a nossa banda, e não sobre outra banda. Agora, ao mesmo tempo, a gente acha muito bacana poder fazer releitura das músicas das quais a gente gosta. A gente tem tocado uma música chamada "À Palo Seco", do Belchior, a gente tocou no Ford Models, da MTV, "Desce", do Arnaldo Antunes. Então a gente vez ou outra acaba tocando alguma coisa.

Roquenrou - O que você escutaria se fosse pra colocar um som agora na sua casa?

Marcelo Camelo - Chico Buarque. Só tenho ouvido Chico Buarque, há uns seis meses.

Roquenrou - A gente está fazendo a eleição dos melhores do ano passado. Qual seria o melhor álbum de rock de 2001?

Marcelo Camelo - Melhor álbum de rock de 2001? Pô, o nosso! (risos) Eu acho!

Roquenrou - E internacional?

Marcelo Camelo - Internacional? Os Strokes, eu acho. É bacana o disco. Cara, eu confesso que tenho estado bem por fora, não tenho ouvido muito. Eu tenho ouvido muito Chico Buarque, então eu fico meio por fora da cena de rock. Eu sempre procurei ouvir coisas que saíam. O Amnesiac, do Radiohead é de 2001, né?

Roquenrou - É. Do ano passado.

Marcelo Camelo - ...mas eu não achei tão bacana quanto Kid A. Que mais saiu? O do Travis eu não gostei tanto também...

Roquenrou - O que saiu bastante no ano passado foi new metal...

Marcelo Camelo - Ah, isso eu odeio, cara!

Roquenrou - Eu também não gosto, mas eles ficam bombando direto na rádio: new metal, new metal...

Marcelo Camelo - Isso eu odeio, cara! Eu não suporto isso. Isso é negócio de adolescente americano. Eu fico muito triste de ver como brasileiro compra isso como se fosse a melhor coisa do mundo.

Roquenrou - Você usa internet? Baixa MP3?

Marcelo Camelo - Eu uso a internet muito pra receber e mandar e-mails e pra visitar nossa página. Não uso pra muito mais do que isso porque eu não tenho um computador moderno nem uma conexão boa. Outro dia eu tava na casa de um amigo, ele entrou no site do Gorillaz e começou a jogar um jogo, na hora... Isso eu não tenho, não posso com isso, não!

Roquenrou - E o que você acha do Gorillaz?

Marcelo Camelo - Eu acho aquela música de trabalho bacana. Na verdade eu não ouvi o disco, porque me falaram bem mal do disco.

Roquenrou - Mas a idéia da banda, de ser de desenho?...

Marcelo Camelo - Acho bacana, como um projeto. Na verdade eu não gosto muito dessa estética airbrush, bonecos modernos pixadores, sabe? Acho meio feio esteticamente, só. No entanto acho a idéia boa, uma idéia precursora de alguma maneira e acho como um projeto paralelo uma excelente idéia.

Roquenrou - Você gostaria de deixar uma mensagem pras bandas novas?

Marcelo Camelo - A mensagem é: Façam tudo com sinceridade! Façam tudo como o coração de vocês mandar porque é a única maneira de saber. Se der certo foi por méritos próprios, se der errado foi por deméritos próprios. Então que pelo menos seja sincero.

O site do Los Hermanos é www.loshermanos.com.br

 

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“O Abril Pro Rock na verdade foi um degrau acima do nível do lugar onde a gente estava, aqui no Rio”

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"O amor não é um tema, o amor é uma situação com muitos sub-temas”

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"Acho que esse negócio de ficar botando no pedestal artistas catedráticos é um pouco contraditório com a postura do rock”

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“Tá me jogando pedra por uma opinião estética que eu tenho?”

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“apesar de nosso primeiro disco ser de hardcore, nunca gostei muito de hardcore nem californiano nem novaiorquino”