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Jeff Beck Group

Truth

1968

Há alguns meses atrás perguntamos aos nossos leitores, em nossa Crítica Relâmpago, qual seria a banda dos seus sonhos? O intuito da pergunta era, como numa grande brincadeira, fazer o leitor usar a imaginação. Que tal Jimi Hendrix e Janis Joplin na mesma banda, já imaginaram? O fato é que alguns leitores levaram a brincadeira a sério demais e fomos obrigados a engolir coisas como: "A maior banda de todas é a minha preferida, e pronto." E lá vinham listas chatíssimas de bandas que já existiam. Mas alguns leitores botaram a cabeça pra funcionar e surgiram ótimas sugestões, sendo algumas totalmente inusitadas. Alguns exemplos: vocal: David Coverdale, guitarras: Jimmy Page e Angus Young, baixo: John Paul Jones , bateria: Keith Moon. Ou que tal esta: vocal: Joey Ramone, baixo: Sid Vicius, bateria: Ringo Starr, guitarra: Dexter Holland.

Bem, o caso é que os nomes acima citados são de personalidades consagradas, que fizeram e ainda fazem muito pelo rock and roll. Mas há exatamente 35 anos atrás, surgia uma banda onde a maioria dos nomes eram quase que totalmente desconhecidos do grande público. A exceção talvez ficasse por conta apenas do líder da banda: Jeff Beck. Afinal ele tinha sido o guitarrista da lendária banda The Yardbirds, banda onde além de Beck, também contou, em momentos diferentes, com Eric Clapton e Jimmy Page nas guitarras. Jeff Beck tocou nos Yardbirds entre os anos de 1965 (quando substituiu Eric Clapton) até o final de 1966, quando resolveu sair para montar sua própria banda, talvez pelo fato de, com a entrada de Jimmy Page no grupo, os Yardbirds terem ficado muito pequeno para a presença de dois guitarristas desse quilate.

Truth, álbum de estréia do Jeff Beck Group, conseguiu reunir um grupo de músicos de primeira, que num futuro próximo alcançariam fama mundial em outras bandas. Para os vocais o escolhido foi, nada menos, que Rod Stewart, cantor de voz rouca inconfundível, que já tinha cantado em várias outras bandas, mas que somente após juntar-se ao Jeff Beck Group pode desenvolver uma carreira solo mais sólida, e ainda ter tempo de participar no The Faces, banda que fez muito sucesso nos anos 70. Com o tempo o Faces acabou ficando para segundo plano e Rod Stewart acabou se dedicando somente a sua bem sucedida carreira solo. No baixo, Beck chamou Ron Wood, que mais tarde integraria o Faces ao lado de Rod Stewart. Em 1974 Ron Wood seria convidado por Mick Jagger a ingressar nos Rolling Stones substituindo o guitarrista Mick Taylor.

Jeff Beck nas guitarras, Ron Wood no baixo e Rod Stewart nos vocais. Alguém aí pensou que essa poderia ser uma banda dos sonhos? Sem dúvida poderia, só que ela realmente existiu, e não pára por aí não! Um certo John Paul Jones (que posteriormente formaria, juntamente com Jimmy Page, Robert Plant e John Bonhan, o Led Zeppelin) tocou órgão em uma das faixas do disco. Para o piano foi chamado Nick Hopkins, considerado um dos maiores pianistas do rock, que posteriormente tocaria como convidado em discos de grupos como The Who, Jefferson Airplane , em vários álbuns de George Harrison e no disco Imagine de John Lennon. Mas Nicky Hopkins ficou realmente conhecido por suas participações nos discos dos Rolling Stones, sendo inclusive convidado a entrar para o grupo quando Brian Jones morreu. Mick Waller completaria o time na bateria, substituindo Aynsley Duncar, que sairia da banda um pouco antes da gravação do álbum.

Para começarmos a falar de Truth é interessante situarmos a época em ele foi gravado. Os Beatles tinham lançado Sgt. Pepper’s um ano antes, dando novos rumos à música. Mas o Jeff Beck Group , uma banda com fortes raízes no blues, surgiu juntamente com o Cream de Eric Clapton, como fonte de inspiração para a formação de bandas de hard rock como o Led Zeppelin e o Faces, só pra citar alguns exemplos.

O álbum abre com uma faixa que Jeff Beck trouxe dos tempos dos Yardbirds, "Shapes Of Things", num arranjo em que Beck colocou mais peso ainda nas guitarras. Rod Stewart e Jeff Beck literalmente "duelam" nas faixas seguintes: "Let Me Love You", um blues onde Rod Stewart mostra porque é um maiores vocalistas de todos tempos, fazendo frente a guitarra alucinada de Beck e, "Morning Dew", uma balada marcada por belos solos de guitarra de Beck contrapondo com a voz rascante de Rod Stewart.

"You Shook Me", clássico de Willie Dixon, tem como destaque o piano de Nicky Hopkins, além é claro da guitarra de Beck . É interessante ouvir essa versão de Beck, bem enxuta se comparada à do Led Zeppelin, gravada posteriormente no primeiro álbum da banda de Jimmy Page. Sinceramente é difícil dizer qual é a melhor. Já "Ol’ Man River", traz Jeff Beck no baixo e na guitarra e John Paul Jones no órgão, numa interpretação pra lá de emocionante de Rod Stewart.

O lado acústico de Jeff Beck aparece na instrumental "Grensleeves". Na seqüência "Rock My Plimsoul", uma música que já havia sido gravada por Rod Stewart, só que desta vez numa versão mais trabalhada. "Beck’s Bolero" vem a seguir, composição do amigo Jimmy Page, feita na medida para Jeff Beck mostrar todo seu virtuosismo na guitarra.

Uma gravação ao vivo que entrou no álbum foi "Blues Deluxe", onde a banda mostra que não estava pra brincadeira. Trata-se de um blues como nos velhos tempos, vocal, guitarra, baixo, bateria, piano, tudo perfeito. Grande participação, mais uma vez, de Nicky Hopkins, que desta vez duela com a guitarra de Jeff Beck, onde quem ganha é o ouvinte, numa das mais arrasadoras performances ao vivo da banda.

Truth fecha com outro clássico de Willie Dixon, "I Ain’t Superstitious", onde Jeff Beck confessa, no encarte do disco, ter se apropriado dos riffs de outra fera do blues, Howlin’ Wolf.

A banda dos sonhos existiu sim. Pena que em decorrência do enorme ego dos seus protagonistas (leia-se Beck e Stewart) tenha durado tão pouco tempo. Mas enfim, tempo suficiente para deixar para a prosperidade um álbum que gerou mais influências do que simplesmente músicas de sucessos.

22*4*2003

Ronaldo Branco
Ronaldo é rock mesmo

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