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 | BeatlesAbbey Road1969 |
Incluir um disco dos Beatles nesta discoteca básica não é uma tarefa das mais fáceis. Primeiro porque é muito óbvio, tudo já foi dito sobre eles. Todos concordam que qualquer disco da banda é clássico. Segundo porque cresci ao som dos Beatles. Meu irmão Arnaldo, bem mais velho do que eu, ouvia sempre, e indiretamente acabou me influenciando a gostar de rock e principalmente dos Beatles. O primeiro disco que comprei foi dos Beatles, uma coletânea chamada The Beatles Ballads, que ainda guardo em ótimo estado e, como eu ainda não tinha grana pra comprar um aparelho de som, ouvia na casa do meu amigo Paulo. O detalhe é que ele era fã do Queen e não curtia Beatles, mas me deixava invadir a sua casa, onde ao som dos Fab Four passávamos horas discutindo quem fazia o melhor som.Abbey Road pode ser considerado o melhor disco de despedida de uma banda de rock? Sim, porque tudo levava a crer que este álbum foi elaborado para ser o último. Eles sentiam que era o último, e tinha que ser bom. "The End", música que fecha o álbum com a célebre frase: "E no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você faz", deixa isso ainda mais evidente. É fato que os quatro já não se suportavam e, por conta disso, Abbey Road não foi um álbum fácil de ser gravado, ainda mais se considerarmos que eles vinham de uma frustada tentativa de "uma volta as origens" com o disco/filme Let it Be. Lançado posteriormente, com a produção de Phil Spector (e não George Martin), Let it Be é um álbum de excelente qualidade técnica e ótimas canções, mas que devido as tensões durante as gravações e pelo desinteresse do grupo em acompanhar a produção final do disco, acabou sendo considerado o trabalho mais falso dos Beatles. Portanto Abbey Road, último disco gravado pela banda, foi a chance que eles deram a si próprios de provarem que ainda podiam fazer um grande disco de rock’n’roll. Ao contrário de álbuns anteriores, raramente se via no estúdio todos os músicos reunidos. Muitas vezes havia apenas dois deles, ou no máximo três. O ausente mais tarde ou num outro dia passava por lá e registrava a sua participação, isso quando necessário. Apesar disso, Abbey Road se tornou um dos melhores álbuns lançados pelos Beatles, o que o credencia para qualquer discoteca básica que se preze. Nesse disco ficava ainda mais clara a distância que havia entre John Lennon e Paul McCartney, e a competição entre eles cada vez mais acirrada. Não dá pra afirmar com certeza, mas apesar de assinarem em conjunto todas as composições, nenhuma música deste álbum foi de fato uma parceria entre John e Paul. "Come Together", por exemplo, é uma composição tipicamente John Lennon. Assim como "Oh Darling", além de ser a cara de Paul McCartney, ainda teve o agravante de John sequer ter participado dessa gravação, deixando ainda mais evidente que ele realmente não teve nenhum envolvimento no processo da criação dessa canção. Em minha opinião, essa acirrada disputa ente Paul e John, essa rivalidade criada entre eles, em ver quem colocava mais músicas de qualidade nos álbuns do grupo, teve vital importância no crescimento musical dos Beatles. É claro que essa rivalidade só poderia resultar no fim da banda, mas enquanto durou, teve mais prós que contras. Juntando esse fato ao crescimento de George Harrison como compositor, só poderia resultar num dos melhores álbuns de despedida de uma banda de rock. O álbum abre com "Come Together" de John Lennon, rock básico, com destaque especial ao excelente trabalho de George Harrison na guitarra solo. Alias, George teve participação fundamental para o sucesso de Abbey Road. Com "Something", considerada por muitos como a melhor faixa do disco, ele conseguiu emplacar pela primeira vez o Lado 1 de um single dos Beatles. Talvez a música mais romântica dos Beatles, regravada por ícones como Elvis Presley e Frank Sinatra, entre tantos outros. Paul aparece com "Maxwell’s Silver Hammer", uma das músicas que o grupo mais ensaiou, e que tem como curiosidade o fato de Paul ter tocado guitarra-solo e George o baixo. Como John não participou desta gravação, George toca também a guitarra-base. Em "Oh Darling", outra em que John não deu as caras, Paul se supera como vocalista, num vocal crescente e emocionante. Apesar dessa música dificilmente constar em alguma coletânea da banda, é, em minha opinião, uma das canções mais bonitas dos Beatles. "Octopus Garden", composição de Ringo Star, consegue levantar o astral da banda. Talvez pelo seu tema infantil ou pelo fato de Ringo, "o amigo de todos", conseguir finalmente reunir os quatro integrantes ao mesmo tempo no estúdio, fato raro nesse disco. Nesta música todos tocam seus respectivos instrumentos, sendo que Paul, além do baixo, toca piano e participa com George nos backing vocals. John ressurge em "I Want You (She’s so Heavy)", feita para Yoko. Jonh gostaria que seus parceiros aceitassem Yoko, mas reconhecia que ela era muito "pesada" para o grupo. Em contraste com "I Want You (She’s so Heavy)", desabafo de John Lennon, "Here Comes The Sun" de George, nos remete a uma profunda paz de espírito. Sem dúvida George Harrison estava especialmente inspirado nesta época. Segundo George ele escreveu "Here Comes The Sun" durante sua estadia na Índia, em meio às suas meditações. "Because", obra prima da banda, traz John, Paul e George dividindo os vocais. A partir daí, com "Your Never Give Me Your Money", Paul dá início a um "duelo" impressionante com John. Sem dúvida, George Martin teve participação fundamental como produtor, fazendo com que o talento, e não a rivalidade entre os dois, sobressaísse no álbum. A idéia de Paul era encadear várias músicas numa espécie de "maratona", como ele mesmo a denominou. John contra-ataca com "Sun King", "Mean Mr. Mustard" e "Polythene Pam". Mas se John consegue encaixar três músicas seguidas, Paul volta à carga com a belíssima "She Came In Through The Bathroom Window". O interessante é que trata-se de uma seqüência homogênea, com as músicas interligadas uma à outra, nos dando a impressão que o grupo nunca esteve tão unido. "Golden Slumbers", de Paul, dá uma quebrada na "maratona", dando tempo pra gente recobrar o fôlego. Bela e triste, "Golden Slumbers" traz Paul ao piano e a inclusão de uma orquestra no fundo. Já em "Carry That Weight", o álbum se transforma em pura energia. Ringo vive seu momento de Keith Moon (genial baterista do The Who). George, John e Paul, respectivamente, fazem o solo final , num maravilhoso duelo de guitarras, culminando com o final emocionante de "The End". É preciso esclarecer que "The End" é aquela parte que vem logo após os solos de guitarra de George, John e Paul. Não confundir com "Her Majesty", que surge do nada e tem o acorde final de violão de Paul abruptamente cortado, por motivos que desconheço. "E no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você faz", frase de "The End", música que marca o fim de uma era. E existe frase mais verdadeira que essa? E não foi isso que os Beatles sempre fizeram? Uma bela despedida, sem dúvida, para aqueles que ainda são os melhores do mundo. .................................................................................................... Muito do que sei sobre os Beatles eu agradeço a Marco Antônio Mallagoli, jornalista, músico e beatlemaníaco inveterado. 27*7*2002 Ronaldo Branco Ronaldo é rock mesmo
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